Há história que o público não sabe!

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Em 1990, já com o MPD em plena marcha e a preparar-se para as eleições do 13 de Janeiro de 1991, a Comissão Política Nacional do Movimento para a Democracia (MPD) indicou-me como responsável pela campanha do partido na Região de Santa Catarina de Santiago.

Eu e o José Manuel Pinto Monteiro tomámos a decisão de fechar os nossos escritórios de advocacia e transferir a nossa residência para Assomada, Santa Catarina, para nos dedicarmos totalmente ao combate político e à prepação das eleições legislativas de 1991.

A vontade de preparar a vitória sobre o regime do partido único – o PAICV, seu protagonista – era de longe superior a tudo o que deixávamos na Praia, incluindo os rendimentos dos nossos escritórios de advocacia.

Foram três meses de combate, peito a peito, corpo a corpo, todos os santos dias, com uma enorme desigualdade de meios materiais e financeiros entre nós e o PAICV.

Nessas circunstâncias, foi o meu grande amigo Preta quem me deu guarida em sua casa – um apoio absolutamente inquantificável e importante!

O advogado José Manuel Pinto Monteiro ficou hospedado na casa dos seus pais.

Não tínhamos meios para mais, nem para quase nada. E, como é evidente, as despesas de campanha eram enormes.

Uma das funções atribuídas aos responsáveis regionais era, de forma autónoma, escolher e preparar as listas de candidatos a deputados, no caso, pelo círculo de Santa Catarina de Santiago. Assim o fizemos.

No entanto, tanto eu como José Manuel Pinto Monteiro, por vontade própria, decidimos não integrar a lista de candidatos a deputados.

[Muitas vezes o Paicv atira piadas em relação a minha pessoa sobre cargos na Administração… mas eu não ligo a essas piadas.].

Repare-se: tratava-se das primeiras eleições livres e democráticas da República, eleições fundadoras do regime democrático. Ainda assim, conscientemente, não quisemos fazer parte da lista que nós próprios elaborámos, sem qualquer comando da Praia.

Foi um gesto claro de desprendimento em relação a cargos. Para nós, a política nunca foi um caminho para cargos.

Não condeno, contudo, quem tenha ambições diferentes. Todas as posições são perfeitamente aceitáveis.

Não sei como é hoje o figurino da composição das listas. Duvido que existam atualmente muitos candidatos dispostos a seguir o exemplo que demos em 1991. Mas isso é normal, e não condenamos outras atitudes. A vida é composta por atitudes plurais.

Quero apenas chamar a atenção dos potenciais candidatos do MPD para um ponto essencial:

as listas de candidatos a deputados são limitadas. E esse momento de escolha, que é de tudo um processo complexo, não deve gerar descontentamento nem raiva. Não se pode agradar a gregos e a troianos.

Os objectivos do partido devem ser sempre a prioridade, e a composição das listas deve obedecer a esses objectivos.

Não afrontemos ninguém – nem o partido.

E em 1991, qual foram os resultados em Santa Catarina de Santiago?

Os resultados foram espectacularmente excelentes para o MPD. E foi uma estrondosa derrota para o Paicv! No círculo de Santa Catarina de Santiago havia no total 7 deputados. Na lista do Paicv, havia o David Hopffer Almada como cabeça de lista e José Maria Neves, actual Presidente da República em segundo da lista. Em 7 deputados, do Paicv passou só o David Hopffer Almada por uma diferença não mais que 200 votos, se a memória não me falha, passou à rasquinha, e o José Maria Neves foi chumbado e não foi deputado no mandato 1991/1996.

O MPD ganhou em Santa Catarina de Santiago, no inesquecível 13 de Janeiro de 1991, por 6 deputados e o Paicv ficou tangencialmente com 1 deputado.