Reações de figuras de diferentes quadrantes políticos lembram decisões anteriores de José Maria Neves em casos semelhantes, colocando em causa a sua honestidade intelectual e a coerência do seu posicionamento atual
A declaração do Presidente da República, José Maria Neves, sobre o processo disciplinar envolvendo a Diretora da Televisão de Cabo Verde (TCV), provocou uma onda de críticas nas redes sociais, onde muitas vozes acusam o Chefe de Estado de hipocrisia e de “falar agora contra práticas que ele próprio, no passado, adotou ou tolerou no mesmo setor”.
No posicionamento divulgado, o Presidente afirmou estar “chocado” com a suspensão de Dina Ferreira e classificou a atuação da Administração da RTC como “interferência inaceitável”. Disse ainda que “a liberdade de imprensa e expressão está em causa” e que “não deve haver titubeios na defesa dos valores democráticos”.
A reação pública foi imediata — e intensa
Críticas surgem de todos os quadrantes políticos
Ao contrário do habitual, desta vez não houve clivagem partidária.
Críticas vieram de vozes do PAICV, do MpD, do centro, da sociedade civil e de jornalistas num raro momento de convergência de perceções.
1. Horácio Semedo (ex-PCA da RTC e ex-administrador do BCV)
Numa crítica velada, recordou situações do passado, quando era PCA da RTC

2. Rosário da Luz (comentadora, ex-Diretora da TCV, com histórico conhecido no setor)
A crítica mais viral veio de Rosário da Luz, que relembrou que ela própria foi demitida da direção da TCV em 2002, precisamente durante o Governo liderado por José Maria Neves, por recusar interferências editoriais:
“Foi esse mesmo Presidente da República que aprovou — em 2002, enquanto PM — a expulsão da diretora da TCV — eu — pelas MESMAS razões. (…) Nem Tolentino nem o atual PR exprimiram os elevados ideais democráticos que agora defendem…
Permite-me alguma desconfiança sobre as motivações desse pessoal na defesa da liberdade de informação.”
Rosário da Luz.
3. Do lado MpD: Armindo Lélis, Jacinto Santos e Casimiro de Pina
Armindo Lélis recordou o episódio envolvendo o antigo Diretor Tony Teixeira, cuja saída ocorreu sob forte tensão política, novamente, sem condenação pública, ou mesmo promovido, pelo então Primeiro-Ministro.

4. Já Jacinto Santos, antigo Presidente da CMP, foi mais frontal:
Jacinto Santos afirma que o Presidente da República devia ser fator de estabilidade, evitando tomar partido em conflitos laborais, já que estes devem ser resolvidos nos tribunais, não na arena política.
Admite que a solidariedade com os jornalistas pode ser compreendida, porque a classe já foi “generosa” com o PR num momento difícil.
Mas alerta para o que chama de “amnésia seletiva” do Chefe de Estado e defende que, se há arrependimento, deve ser assumido publicamente:
“Esperamos pelo ato de contrição: errei, estou arrependido, e não voltarei a reincidir.”
Conclui com ironia cristã: “Um bom cristão perdoa.”
“Estou a caminho do Reino da Dinamarca.”
5. Casimiro de Pina (jurista e analista político)
Casimiro de Pina, crítico de longa data do atual Chefe de Estado, condena duramente a intervenção do Presidente da República no caso da TCV, classificando-a como ingerência indevida num processo disciplinar interno.
Segundo ele, José Maria Neves “não compreende o papel de um Presidente num Estado de Direito” e age como se a instituição fosse uma extensão pessoal do seu poder: “O dr. Neves é um absurdo ambulante. Não consegue perceber o significado de ser PR numa democracia constitucional.”
Casimiro recorda o passado político de matriz jacobina e autoritária:
“Ainda tem a cabeça nos anos 1980, quando o PAICV se julgava a ‘força dirigente da sociedade e do Estado’.”
E acusa o Presidente de centralizar poder e decidir acima das instituições: “Transformou-se no novo Luís XIV africano: L’État, c’est moi.”
A crítica inclui referências a episódios polémicos do seu mandato, como “salários inconstitucionais atribuídos à sua companheira” e declarações recentes “fazendo apologia da ditadura de partido único”.
Casimiro conclui que apoiar a posição do PR é trair os princípios básicos da profissão jornalística: “Pôr-se ao lado de José Maria Neves é sufragar um jornalismo de sarjeta, contra a Constituição e contra a dignidade republicana.”
E encerra com uma questão direta ao setor: “O valor do jornalismo é a procura da verdade. Quando sairemos da indignidade por opção?”
O traço comum nas reações: o discurso atual do Presidente contradiz a sua prática passada.
O ponto central da polémica
A leitura dominante entre críticos é simples:
Quando Chefe do Governo, José Maria Neves não denunciou, não travou, e até promoveu episódios de ingerência política nos órgãos públicos de comunicação social;
Agora, o novo José Maria Neves, como Presidente, surge como defensor absoluto da liberdade editorial, condenando a atuação da RTC num caso em que o processo disciplinar está documentado, instruído externamente e juridicamente fundamentado.
Para muitos, essa mudança de postura é vista como: Conveniente. Tardia. E politicamente calculada
Discurso elevado, passado incómodo
A polémica expôs uma fratura entre discurso e prática. E reacendeu um debate antigo, sempre adiado:
Quem controla, influencia e condiciona os órgãos públicos de comunicação?
Num País onde a memória política é curta, o episódio deixou claro que as redes sociais não esqueceram.
E desta vez, não foi a oposição que criticou o Presidente.
Foi (quase) toda a sociedade.



Quando vi o posicionamento do PR disse aos meus botões que isso jamais ficaria sem troco.
Um outro assunto-Aposto com quem quiser que os defensores incondicionais de Amadeu Oliveira irão dizer que o processo de corrupção onde ele está envolvido, juntamente, com a Leonesa Fortes é uma perseguição política.
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