Hoje e Amanhã

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Desde que o cabo-verdiano é cabo-verdiano, ele sempre sonhou em deixar a sua impressão digital nos cantos e bordas do mapa do mundo. Tanto na cultura, como na educação, como no desporto, o cabo-verdiano, apesar de pouco conhecido e desfavorecido, sempre se destacou por onde passou.

David de Pina recentemente gravou a impressão digital de Cabo Verde duma das formas mais gloriosas e surpreendentes para Cabo Verde. Não só ele deixou as suas marcas para o seu país natal, pequeno, mas com muita ambição, mas também fez-se entrar nas tabelas das poucas medalhas que a África Lusófona conquistou esse ano. David de Pina com toda a certeza fez história!

Mas a distinção de David de Pina veio como se fosse uma espada de duas pontas: por um lado, levantou e reconheceu-se o nome de Cabo Verde ao mais alto nível, fato que sempre desejamos e orgulhamos muito, mas por outro lado, veio-se expor um sistema desajustado do reconhecimento do mérito pessoal e individual no país e o sistema de cultivação de oportunidades no mundo do desporto.

De fato, Cabo Verde não é e nem passará a ser, num período breve de tempo, um dos melhores países a dispor das melhores oportunidades no mundo do desporto. O país ainda não é ainda sustentável e sofre grandes riscos de choques externos, o que o acarreta a ter outras prioridades centrais nesse momento que não o desporto. Essas prioridades, nomeadamente, são a efetivação dos recursos e processos para a transição energética (importante para a independência financeira do país em matérias de importação de combustíveis fósseis), a eliminação da pobreza extrema, a redução da pobreza absoluta, a diversificação da economia para não estar inteiramente focada em um único setor-chave que pode acarretar enormes riscos, a promoção do país em termos de investimentos, entre vários outros.

Apesar desse conhecimento geral, o atual governo do país tem vários programas disruptivos de financiamento ao desporto cabo-verdiano, por entendê-lo como algo essencial para a opinião pública e para a satisfação da sociedade civil.

Anualmente, o governo financia as várias instituições desportivas no país, incluindo as federações nacionais para a realização de seus planos estratégicos no país; existe um ministério somente com o fim de desenvolver o desporto nacional e existe toda uma instituição criada para a promoção do desporto nos municípios mais afastados e periféricos, o IDJ.

Mas cedo podemos questionar! Se analisarmos Portugal, Estados Unidos da América ou o Reino Unido, quais desses países financiam totalmente o desporto através do Estado?

O desporto em todos esses países, e muito outros mais, é completamente privado.

A NBA é uma organização completamente privada nos Estados Unidos que organiza, planeia e rentabiliza o basquetebol americano sem nenhuma intervenção do Estado. Além disso, cada equipe individual no país consegue gerar receitas através dos seus jogos locais nos seus próprios estádios, através do marketing e dos seus serviços oferecidos. E esse processo é da mesma forma semelhante para a NFL, a NHL, a MLB, a MLS e as outras várias ligas nacionais.

Ademais, os atletas das equipas americanas são dos mais bem tratados, com os melhores atendimentos personalizados, treinos especializados, equipas de trabalho extremamente formadas e competentes e possuem todos um conjunto de benefícios e garantias para o cuidado do seu próprio bem-estar, para além de receberem milhões como salário!

Penso que o modelo seguido por essas equipes e federações não é só algo adaptável a esses países como a todos os outros inclusive no caso de Cabo Verde.

As federações nacionais podiam possuir esses mesmos olhos na formação desse grande mercado para evoluir o desporto no país. Há grandes oportunidades de capitalizar com o desporto cabo-verdiano, e de com isso, melhorar a qualidade dos atletas e oferecer mais oportunidades. Há de se esperar menos pela ajuda financeira do Estado. Há de se  criar equipas privadas, trabalhar o seu marketing, e “vender” os seus atletas como figuras públicas, assim como, o Benfica, o Porto ou o Sporting fazem.

Essa cultura de capitalizar e empreender já existe em outras áreas, como por exemplo, o entretenimento. Grandes promotores de eventos privados nacionais investem grandiosamente nos seus eventos, indo-se ao ponto de transformar pequenos artistas em grandes figuras públicas, utilizando o marketing para rentabilizar e transformar a área num grande centro de negócios para o país.

Acredito que seja da mesma forma possível para a área do desporto. Acredito que é uma questão de criar cultura.