Uma decisão inédita e politicamente carregada do Presidente da Câmara Municipal da Praia está a provocar forte reação entre atletas, associações desportivas e setores da sociedade civil
A Autarquia da Capital decidiu extinguir a tradicional Corrida da Liberdade do 13 de Janeiro, prova há anos integrada no calendário desportivo da Cidade da Praia, e substituí-la pela Corrida dos Heróis Nacionais, marcada para 20 de janeiro, numa primeira edição.
A medida surge num contexto sensível. Janeiro é um mês simbolicamente denso na história democrática Cabo-verdiana. O 13 de janeiro, celebrado com a Corrida da Liberdade, assinala a Democracia e a Liberdade; o 20 de janeiro evoca a Independência e os Heróis Nacionais, no já batizado semana da República.
Ao eliminar a Corrida do 13 de Janeiro, prova consolidada e esperada pela comunidade, e criar uma nova corrida numa data politicamente conotada, a Câmara Municipal introduz um corte abrupto numa tradição cívica e acentua uma leitura partidária do espaço público.
O facto de o Presidente da Câmara acumular funções como líder do principal Partido da Oposição (PAICV) e candidato a Primeiro-Ministro nas próximas eleições agrava a perceção pública de instrumentalização política do desporto e das efemérides nacionais. Na prática, uma tradição transversal é removida e substituída por um evento novo, com marcação simbólica distinta, sem auscultação pública conhecida e sem explicação convincente aos principais interessados: atletas, clubes, treinadores e cidadãos.
“As corridas pertencem à cidade, não a agendas partidárias”, resumiu um dirigente associativo ouvido por OPAÍS.cv, alertando para o risco de polarização desnecessária. A crítica é clara: o Município deve unir, sobretudo em matérias que historicamente congregam a população, como o desporto popular, e não reescrever tradições ao sabor de calendários políticos.
Especialistas em gestão pública e desporto sublinham que a criação de novos eventos não exige a eliminação dos existentes. A Cidade da Praia poderia, sem conflito, manter a Corrida do 13 de Janeiro e introduzir a Corrida dos Heróis Nacionais, ampliando a oferta desportiva e fortalecendo a coesão social. Optar pela substituição é uma escolha, e escolhas têm consequências.
Num País que se orgulha do seu percurso democrático e plural, o espaço público deve ser neutro, inclusivo e respeitador das tradições partilhadas. Extinguir uma corrida histórica para institucionalizar outra, em contexto eleitoral e com clara leitura simbólica, não é apenas uma decisão administrativa: é um sinal político. E, para muitos, um sinal muito errado.
OPAÍS.cv continuará a acompanhar o caso e a exigir esclarecimentos à Autarquia sobre os critérios, o processo de decisão e a ausência de diálogo com a comunidade desportiva. A democracia também se defende no quotidiano das cidades, e nas tradições que as unem, não nas que as dividem.


