Incêndio na Ponta Belém deixa comerciantes em desespero

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“Chamámos os bombeiros durante mais de uma hora e ninguém apareceu”

Vários comerciantes e moradores relatam momentos de aflição durante o incêndio que destruiu ontem, estabelecimentos comerciais na Ponta Belém, na cidade da Praia. Um grupo de populares diz que teve de arriscar a própria vida para salvar bens e ajudar a combater as chamas devido à demora dos bombeiros e à alegada falta de meios para enfrentar a emergência.

O incêndio que atingiu ontem, domingo, uma zona comercial na Ponta Belém, deixou um rasto de prejuízos, revolta e muitas perguntas sem resposta. Entre comerciantes que perderam praticamente tudo e populares que correram para ajudar, as críticas dirigem-se sobretudo à demora dos bombeiros municipais e à insuficiência de meios para combater as chamas.

Uma das vendedeiras afetadas conta que estava a trabalhar noutro local quando recebeu o alerta. “Não sabemos a origem. Estávamos a vender lá em baixo quando as pessoas começaram a dizer que havia fogo. Vim a correr porque tenho negócio aqui. Quando chegámos, empurrámos a porta e entrámos. Os rapazes conseguiram tirar algumas coisas que estavam em baixo, mas lá em cima queimou tudo”, lamentou.

Segundo a comerciante, foi a união entre vendedores, moradores e transeuntes que permitiu salvar parte dos bens.

“Foi um junta-mão para tentar salvar os nossos pertences. Tivemos mais de uma hora a chamar os bombeiros e não apareceram”, denunciou.

Outra vendedeira explicou que escapou de perder mercadorias porque já tinha retirado os produtos do local para vender noutro espaço, mas viu colegas ficarem sem nada. “Hoje todos nós saímos daqui para vender noutro local, mas se estivéssemos aqui poderíamos ter ficado feridos. As minhas colegas perderam tudo. Não sabemos o que aconteceu. Isto nunca tinha acontecido antes aqui”, afirmou.

Entre os populares que ajudaram a combater o fogo, o sentimento predominante é de tristeza e indignação.

“Uma situação destas devia ter outra resposta. É triste ver chefes de família perderem tudo. Nós arriscámos as nossas vidas para tentar ajudar porque os bombeiros foram chamados e demoraram muito a chegar”, disse um dos homens que participou nas operações improvisadas de socorro.

Um outro cidadão relatou que passava de carro quando avistou uma coluna de fumo. Parou imediatamente. “Chegámos, arrombámos a porta e tentámos ajudar naquilo que podíamos. Eu próprio liguei para os bombeiros mais de seis vezes, mas não chegaram a tempo”, contou.

A falta de meios também foi apontada por um condutor de um camião-cisterna que ajudou no combate às chamas.

“Estamos aqui para dar suporte porque não vimos nenhum bombeiro por aqui. A água do tanque dos bombeiros acabou. Não sei se vão voltar a tempo e nós vamos ajudando como podemos”, afirmou.

As críticas foram igualmente partilhadas por moradores da zona, que consideram que a resposta operacional ficou muito aquém das necessidades.

“Os bombeiros não conseguiram dar resposta porque o carro que chegou não tinha água suficiente para conter as chamas. Isso é lamentável e fica feio para a cidade da Praia não ter meios suficientes para socorrer uma situação destas”, afirmou um residente.

O proprietário de um dos estabelecimentos afetados, de nacionalidade chinesa, assistiu impotente à destruição dos seus bens.

“Tem de haver bombeiros com mais condições. Fiquei parado a ver as minhas coisas a arder sem poder fazer nada. Os bombeiros têm de ter mais força e mais meios. Hoje aconteceu comigo, mas amanhã pode acontecer com qualquer pessoa”, alertou.

Enquanto comerciantes contabilizam os prejuízos e tentam recuperar o que restou dos seus negócios, permanece o sentimento de que a dimensão dos danos poderia ter sido menor caso houvesse uma resposta mais rápida e eficaz ao incêndio.

Até ao momento, não existe qualquer explicação oficial sobre a origem do fogo que destruiu os estabelecimentos comerciais na Ponta Belém.

As declarações aqui reproduzidas foram prestadas à Televisão de Cabo Verde.

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