Interpretação Jurídica e Interpretação Social: Lições do Artigo 9.º do Código Civil

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O artigo 9.º do Código Civil ensina-nos que a interpretação da lei não se faz apenas pela letra, mas também pelo seu espírito, pela lógica, pela história e pela finalidade visada pelo legislador.

Esta norma, pilar da hermenêutica jurídica, transcende o mundo do Direito e serve de guia para a leitura da própria realidade social e política.

Na aplicação da lei, o intérprete deve procurar o sentido mais justo, coerente e racional, considerando o contexto histórico e os valores subjacentes. Da mesma forma, ao interpretar os factos políticos e sociais, devemos evitar juízos precipitados ou leituras baseadas em acontecimentos esporádicos.

A boa interpretação social exige o mesmo rigor da boa interpretação jurídica.

É, pois, neste prisma que devemos observar o atual momento de Cabo Verde.

Apesar das crises externas, das catástrofes naturais e dos constrangimentos estruturais, o Governo de Ulisses Correia e Silva conseguiu crescer a economia a cerca de 7%, reduzir o desemprego, valorizar carreiras profissionais, aumentar o salário mínimo em percentagem histórica, reforçar a credibilidade externa e elevar o país à categoria de rendimento médio-alto.

Estes resultados, alicerçados em políticas de estabilidade e reforma, não se apagam com o ruído das circunstâncias.

Por isso, quando o meu conterrâneo Manuel Alves afirma que o legado de Ulisses Correia e Silva se resume a “casas às escuras e torneiras secas”, é legítimo reconhecer-lhe a frustração de cidadão exigente — mas não lhe posso conceder razão de intérprete justo.

Porque a hermenêutica, seja jurídica ou social, não se faz de fragmentos, mas de visão global.

Não basta ver a sombra de um problema: é preciso compreender o sol que o projeta.

Interpretar é compreender, e compreender é contextualizar.

Assim como o juiz não pode aplicar a lei sem atender ao seu espírito, também o cidadão não deve julgar a governação sem entender o seu tempo, os seus limites e os seus méritos.

A interpretação literal vê os apagões; a interpretação teleológica reconhece o esforço que os evita e o progresso que deles emerge.

Convém lembrar que o verdadeiro apagão foi o de outrora — o apagão da liberdade e da razão, quando reinavam o partido único, as milícias populares e os tribunais de zona.

Hoje, o que Cabo Verde precisa não é de regressos nostálgicos, mas de crítica construtiva, memória lúcida e responsabilidade cívica.

O artigo 9.º do Código Civil é mais do que uma regra técnica: é uma lição de equilíbrio e de justiça.

Aplicado à vida pública, ensina-nos que a democracia também precisa de intérpretes honestos, capazes de ver para além da letra fria das circunstâncias.

Porque interpretar bem — seja uma norma, seja um país é compreender o sentido profundo do seu caminho.