Júlio Correia, antigo Ministro: A “gang janirista” é “hoje responsável por confundir o partido com um projeto pessoal”

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Antigo, também, Vice-Presidente da Assembleia Nacional, considera Janira Hopffer Almada “a maldição do PAICV”, acusando-a de mentir como método e de dividir o partido

“A mentira deixou de ser acidente e passou a ser estratégia política”

Num texto longo, contundente e carregado de memória política, Júlio Correia rompe o silêncio e acusa Janira Hopffer Almada de ter transformado a mentira, a vitimização e a manipulação interna em método sistemático de atuação política, com consequências diretas na fragmentação e nas sucessivas derrotas eleitorais do PAICV.

A reação surge após a recente entrevista de Janira Hopffer Almada ao programa Ventos de Mudança, que Correia classifica como “recheada de mentiras estruturadas, ensaiadas e recicladas”, não como lapsos ocasionais, mas como parte de um padrão político reiterado. Um padrão que, segundo afirma, não esclarece o País nem fortalece o Partido, antes confirma “o único contributo político consistente” da ex-líder: dividir o PAICV, mesmo em vésperas eleitorais.

Listas manipuladas e democracia interna anulada

Um dos pontos centrais da acusação prende-se com a elaboração das listas eleitorais de 2016, em particular na Ilha do Fogo. Segundo Júlio Correia, Janira Hopffer Almada apropriou-se do Partido e impôs as listas “à sua exata medida”, afastando dirigentes, anulando decisões das estruturas regionais e esvaziando os órgãos eleitos do seu poder deliberativo.

A narrativa pública de que teria sido “novata” ou “empurrada pelo povo do Partido” é classificada como uma falsificação deliberada da história. Correia sustenta que o processo foi marcado por centralização de recursos, pressão material e práticas de influência alheias à livre formação da vontade militante, contrariando frontalmente os princípios da democracia interna.

Mosteiros: um caso concreto, uma rutura por dignidade

No caso específico dos Mosteiros, Correia afirma que o seu nome era consensual entre os militantes locais, tendo sido aprovado em ata numa primeira reunião formal. Ainda assim, a decisão foi anulada por interferência direta de Janira Hopffer Almada, levando-o a pedir a retirada do seu nome das listas “por dignidade”.

Apesar disso, acabou por surgir posteriormente numa posição inelegível, sem consentimento, num gesto que descreve como humilhante e deliberado. A alegação posterior de que teria sido “repescado” por Janira Hopffer Almada é, para Júlio Correia, quase burlesca. O regresso às listas, desta vez por Santiago, teria ocorrido a pedido de dirigentes e militantes preocupados com o agravamento da crise interna do Partido — não como favor pessoal, mas como tentativa de correção de um erro político grave.

Perseguição interna e voto cabresto

O texto denuncia ainda práticas de perseguição política interna, incluindo a convocação de dirigentes e deputados como arguidos partidários por divergirem em matérias como a regionalização, num contexto em que o partido nunca assumiu uma posição clara sobre o tema. Para Correia, tratou-se de uma tentativa de impor voto cabresto onde não havia decisão partidária formal.

Antigos Vice-Presidentes, autarcas, deputados e até um ex-Secretário-geral do PAICV terão sido tratados como réus internos por ousarem pensar de forma autónoma — um traço que Júlio Correia identifica como estrutural na liderança de Janira Hopffer Almada.

Derrotas eleitorais sem assunção de responsabilidades

Outro padrão apontado é a recusa sistemática em assumir responsabilidades pelas derrotas eleitorais. Segundo Correia, sempre que perdeu eleições, Janira Hopffer Almada transferiu culpas para dirigentes, regiões inteiras ou militantes que alegadamente “não apoiaram”, regressando depois ao espaço público como vítima incompreendida.

No Fogo, relata, a campanha legislativa foi pobre em causas e narrativa, ao ponto de militantes insistirem na sua presença em comícios para colmatar a ausência de vozes políticas reconhecidas. Ainda assim, teria recebido instruções expressas para não subir a nenhum palco — decisão tomada ao mais alto nível partidário. Acusá-lo depois de falta de colaboração é, diz, “má-fé política”.

“Não foi azar. Foi má liderança.”

Na conclusão, Júlio Correia é categórico: o PAICV não perdeu eleições por azar nem por perseguições externas, mas por má liderança, arrogância, substituição de causas por ambição pessoal e pela elevação da mentira a método político.

Afirma mesmo que Janira Hopffer Almada nunca encarnou os valores do Partido, tendo usado o PAICV como instrumento de um projeto pessoal de poder. Antes, diz, as disputas internas eram políticas; com ela tornaram-se administrativas, manipuladas e reescritas a posteriori.

O texto termina com um apelo direto aos partidos que concorrem às eleições de maio: não se associem à mentira nem façam alianças com quem fez da falsidade uma estratégia política. Cabo Verde, sustenta, precisa de projetos, verdade e lealdade democrática — não de encenações.

“Há quem perca eleições e aprenda. Janira Hopffer Almada perdeu todas e escolheu perseverar no erro”.

2 COMENTÁRIOS

  1. É o paicv a pagar as consequências das favas que soube escolher.
    Infelizmente algumas das nossas gentes usam e abusam do nome do partido, estando claro que com estrito interesse pessoal e de grupos, retirando-lhe o modesto nome que a história lhe deu.
    Por mais que digam e gritam o seu nome, muitas dessas remetem-nos a reflectir com certa profundade para onde é que nos desejam levar.
    É uma pena, mas o que fazer se são casmurras não dando à tarefa de aprenderem com a história!?

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