“Língua Kabuverdianu” não existe – ela é inconstitucional e divide a nação!

A Constituição não diz que Crioulo de Santiago é “língua kabuverdianu”!

A oficialização da “língua kabuverdianu” (LK) voltou a estar na ordem do dia, tendo por suporte gráfico o ALUPEC, um alfabetu sufragado por decreto do governo de José Maria Neves em 2009. O tempo urge, dizem-nos os fervorosos adeptos da oficialização: “tem que ser agora, para marcar os 50 anos da independência”, proclamam. Parece que os “alupecadores” (como lhes chamava jocosamente o falecido José “Zizim” Figueira) querem reduzir o crioulo a um mero item numa agenda comemorativa!

E, juntando o gesto à palavra, eis que acabam de dar à estampa uma… “Konstituison di Repúblika di Kaboverdi”! Mais uma brincadeira dos “alupecadores” que, com esta tradução, tentam impingir crioulo de Santiago por “língua kabuverdianu”! Ora, essa “Konstituison” é inconstitucional, e explico porquê:

A Constituição da República, no seu artigo 9°, estipula: “O Estado promove as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa” – certo, mas a Constituição não diz que o crioulo de Santiago (ou de outra ilha) é “língua kabuverdianu” (E nenhum político, nenhum jurista ou constitucionalista, viu isto, foi preciso um simples jornalista, diplomata jubilado, para vir lançar esta pedrada no charco!)

O mesmo é dizer que:

1) FAZER PASSAR O CRIOULO DE SANTIAGO (OU DE OUTRA ILHA) POR “LÍNGUA KABUVERDIANU” É UM ARDIL POLITICO E UMA IMPOSTURA INTELECTUAL;

2) QUALQUER TENTATIVA DE OFICIALIZAR O CRIOULO DE UMA ILHA COMO “LINGUA KABUVERDIANU” É UM ATROPELO À CONSTITUIÇÃO;

3) É um desrespeito pela diversidade linguística das ilhas;

4) divide os caboverdeanos e exclui os filhos da dáspora.

“Sob o alto patrocínio do Presidente da República”!

Com a Constituição não se brinca! O Sr presidente da República deveria mostrar-se mais circunspecto em vez de estar a patrocinar a corrente “alupecadora” e o seu líder Manuel Veiga. Ficava-lhe bem guardar distância como tem feito, e bem, na guerra fratricida pela liderança dentro do seu partido, sabendo ele que a questão da “língua kabuverdianu” é bem mais controversa porque importa à Nação e não a um partido político. “Não me envolvam”, diz ele aos seus correligionários políticos, mas ao mesmo tempo arvora-se em patrono dos “alupecadores”! Que alguém de bom-senso aconselhe o PR, para que ele não continue a pilotar este “Titanic”… pois em caso de naufrágio a tripulação vai pular borda fora, e quem vai pagar são os inocentes passageiros!

O ALUPEC/LK divide os caboverdeanos e exclui os emigrantes

Aprovar uma variedade do crioulo como “língua kabuverdianu” não é só atentar contra a nossa diversidade dialectal, semeando a divisão entre os caboverdeanos. É mais grave do que isso, senão vejamos: quem pensou nos nossos emigrantes? O projeto veigo-neviano exclui e discrimina os filhos da diáspora; separa os caboverdeanos da terra-longe e da terra-mãe. Haja em vista que o Crioulo não precisou do ALUPEC para ser um idioma internacional! Foram os nossos emigrantes que o levaram para Luanda, Pawtucket, S. Tomé, Rotterdam, Roma, Luxemburgo, Dakar e Paris… e a língua que ensinaram aos seus filhos, agora têm que reaprendê-la porque um punhado de iluminados tomou conta dela! E os nascidos na diáspora, em que escolas irão aprender o Alupec?! E para quê? Que serventia terá para eles, nos países onde vivem e trabalham, um alfabeto “nôs ku nôs”? Como poderão interagir, sem erros de ortografia, com quem ficou nas ilhas?

A quem aproveita uma língua oficial que não respeita as diferenças, divide a Nação e exclui os emigrantes? Voltarei a este assunto numa outra crónica.

O ALUPEC é um ardil para nos impingir o crioulo de Santiago como “língua kabuverdianu”!
Pretendem os “oficialistas” que o ALUPEC é um alfabeto padrão que se acomoda às díspares variantes do crioulo. Confesso que o ALUPEC não me incomoda. Mas, convenhamos uma coisa é o alfabeto, outra coisa é uma “língua oficial” fonético-fonológica em que cada qual é livre de escrever tal qual se exprime! E nôs linga’Snonton, ê k’mênêra sej t’ta pensá xkrêvêl? Linga d’Snonton ê um sóbura flod nó moda d’nh’ôvô, no n’da mxtê ALUPEC pa xkrêvêl! Sej n’benj k’bsot flestria d’ALUPEC prei”.

Isto, numa outra ilha, seria dito e escrito de outra maneira! Afinal onde está a padronização? Que língua caboverdeana nos querem servir? Como é possível conceber uma língua (oficial ou não) que dá liberdade a cada falante de escrever na sua própria pronuncia e sotaque, conforme lhe der na real gana? Que raio de cacofonia é esta, quem responde por este desatino?

A questão do ALUPEC/LK é complexa e continua envolta numa polémica enviesada em que uns têm direito à palavra e outros não. Não há debate, nos media só é dada a palavra a uma corrente de opinião, desprezando aqueles que não alinham pelo mesmo diapasão.

Todo o barulho vem das hostes do ALUPEC/LK, tanto mais barulhentas face a uma opinião pública sem voz nem voto na matéria. Em boa verdade, o ALUPEC/AK não diz nada à sociedade caboverdeana, de resto mal informada. O ALUPEC/AK tem os “seus” políticos, os “seus” linguistas, os seus fãs… mas, para além deste círculo restrito, não convence. Mesmo em Santiago, a ilha-berço, o povo é sábio e tem consciência que o ALUPEC é conversa para boi dormir.

A sociedade mais letrada queda-se, também ela, expectante, entre indiferença e cepticismo, mas não menos preocupada. Intelectuais e pessoas de menos letras são unânimes em dizer que a nossa diversidade dialectal está em perigo, e que o crioulo de Santiago, com todo o respeito, não é “língua kabuverdianu”!

Cerrar fileiras

A nossa lingua materna é rica da sua diversidade. Por isso a maioria dos caboverdeanos encara a oficialização da chamada “língua kabuverdianu”, aliás crioulo de Santiago, como um acto de prepotência e uma insensatez, porque em detrimento das variedades das outras ilhas. Tanto nas ilhas como na diáspora existe uma real apreensão sobre as consequências que advirão da aventura veigo-neviana.

Eu também me preocupo com os tortuosos caminhos que a nossa lingua materna está a trilhar. Eu sempre evito ter opinião formada à priori, costumo FORMAR a minha opinião analisando a razão dos outros e o porquê das coisas. Se alguém me convencer que este caminho é o melhor, quem falou já não está.

Senão, olim! Quem quiser, nô bai! Nem sempre tem razão quem fala mais alto, mas é hora de dar voz ao silêncio: que os artistas, académicos, jornalistas, poetas, escritores e caboverdeanos em geral façam uso da palavra, assim possamos travar os artesãos do caos que querem construir uma “Torre de Babel” nestas ilhas e marginalizar a nossa diáspora!

7 COMENTÁRIOS

  1. A língua cabo-verdiana (chamada de crioulo) existe sim, tanto que nós a falamos. O resto é debate, que mistura leviandades, bairrismo e um certo complexo. Trabalhar para a sua oficialização, padronização em termos de escrita, introdução de manuais e outros instrumentos deve ser uma tarefa de instituições e pessoas. A discussão é útil. Pena que são muitos os inúteis e que não entendem (ou não querem entender) a importância da nossa língua no contexto de aprendizagem das outras próprias línguas.

    • O Sr José Furtado já parou um segundo para pensar nos impactos financeiros que tal delírio pode custar aos bolsos dos contribuintes caboverdeanos? É sério que o Sr José Furtado que, a deduzir pelo seu (infeliz)
      comentário deve achar-se um dos maiores intelectuais da nossa praça, prioriza o gasto dos parcos recursos públicos neste tipo de desvario?

  2. Caro David Leite, obrigada!
    Posso dizer-te que eu e os meus estamos prontos a integrar estas fileiras para travar estes artesãos do caos.
    Não sou artista, nem escritora, nem académica, nem poeta, nem jornalista, apenas caboverdeana, e é como mulher nascida e criada em Cabo Verde que digo NÃO à toda esta aberração.

  3. Subscrevo

    Creoulo língua oficial é um erro colossal

    Vamos criar uma corrente para não cair nessa desgraça

  4. Há quase 50 anos que se vem debatendo a questão da oficialização do crioulo cabo-verdiano, que inclui todas as suas variantes. Nunca, ninguém defendeu a variante do crioulo de Santiago, ou a de qualquer outra ilha, como única variante a ser oficializada. Entretanto, nos últimos tempos têm surgido, na imprensa escrita, vários artigos de opinião pondo em causa a oficialização do crioulo. Bem, Cabo Verde é um país de liberdade e democracia, portanto, toda a gente tem o direito de opinar. Mas uma coisa são as opiniões, outra coisa são as conclusões de estudos aprofundados realizados por especialistas e académicos sobre a problemática do crioulo cabo-verdiano. Que eu saiba, nenhum linguista cabo-verdiano tem posto em causa a relevância, a pertinência e a necessidade de oficializar a língua materna, em paridade com a língua portuguesa. As opiniões dos leigos em matéria linguística, por mais relevantes que possam parecer, não invalidam as conclusões e as recomendações que resultam de estudos apurados feitos por especialistas. E esta ideia de “criar uma corrente para não cair nessa desgraça”, essa sim, é um autêntico delírio! Se o problema é de Alupec, então que se apresente proposta de escrita alternativa, que supere as eventuais insuficiências do Alupec. Isto, parece que ninguém está disposto fazer, porque não é assim tão fácil como emitir opiniões sem fundamento técnico e científico nos jornais da praça. Ai de Cabo Verde se os que são legalmente competentes para tomarem decisões o fizerem com base apenas em opiniões infundadas, ou em correntes/delírios para evitar cair em desgraça.

  5. Deixem o Crioulo em paz. Ele esteve em paz durante séculos, Agora, com a campanha dos “alupecadores”, o Crioulo perdeu a paz. “Estudos apurados feitos por especialistas?” Quem são eles? Se metade dos cabo-verdianos não aceita essa imposição ideológica que, que por demais, cheira a um determinado partido politico, vamos devagar, e não ousemos brincar com o povo.

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