Lorde George (House of lords) e a Pradaria

Uma parábola ainda por escrever…

Havia numa ilha atlântica, uma pradaria onde, desde os princípios dos anos noventa, reinava uma personagem a quem todos tratavam por Lord George.

Não tinha sangue real, menos ainda sangue azul, nem herdara qualquer título nobiliárquico. O título veio-lhe da outra espécie da nobreza: a longevidade, a influência e a extraordinária capacidade de permanecer quando quase todos os outros já tinham partido.

Com o tempo, Lorde George, pensou ser Rei e começou a comportar-se como proprietário da pradaria e a transformar os militantes em verdadeiros súditos e até nomear Viscondes que o pudessem colocar ao corrente do pensamento dos vassalos para com a sua pessoa.

Uns chamava-lhe estratega. Outros, sobrevivente. Outros, alma penada. Havia, ainda quem, em voz baixa lhe chamasse senhor feudal.

Lord George tinha uma qualidade rara: conseguia fazer passar por intelectual, mesmo sendo um carro sem travão e, fazia desaparecer da paisagem política da ilha algumas árvores que ameaçavam crescer mais do que a própria sombra.

E assim, geração após geração, a pradaria continuava a ter muitos militantes, muitos candidatos e muitos talentos – mas quase sempre o mesmo senhor feudal.

Até que chegou as eleições legislativas.

Havia uma lista preparada e ganhadora. Havia confiança nela e gente compenetrada para ganhar o pleito eleitoral.

Mas, algures entre a decisão e a apresentação, a lista mudou e Lorde George fez vingar a sua posição junto ao líder, conseguindo os seus intentos, fazendo ser eleito cabeça de lista e, com ele o visconde da desgraça, figura com um historial e notoriedade que cabia num romance de histórias rocambolescas.

Um nome saiu: Ama-Deu(s).

Outro saiu.

Mais outro.

Outro entrou.

Dois entraram.

Três idem.

E aquilo, que alguns consideravam uma simples alteração de nomes acabou por se transformar numa alteração do destino e, o selar da derrota já propalada e anunciada era escondida pelo distinto Lorde.

Por onde parava o líder?

Disseram: os neurônios estão em coma político!

A pradaria percebeu antes das urnas.

Os militantes desmotivaram-se. Alguns perderam a Viagra da luta e outros foram para a campanha com a convicção de quem já sabia que estava a combater uma batalha escolhida por outros.

Depois vieram os votos.

E os votos, esses, não obedecem ao Lord.

O partido perdeu.

Perdeu um deputado.

Perdeu as legislativas.

Perdeu a confiança dos militantes.

E perdeu, sobretudo a ilusão de determinado Lorde ou Visconde da desgraça, pudessem vir a ser a salvação da ilha e do partido.

O velho comandante do partido, talvez pudesse explicar por que mudou a rota do barco, quando o mapa já estava traçado e a vitória já era uma certeza?

Será que houve chantagem por parte do Lord George e a sua prole de indefectíveis?

Eu, que conheço alguns dos protagonistas desta história e, até tenho amizade por eles, prefiro não contar aquilo que me contaram, para manter o segredo de quem me contou.

A janela tem ouvidos minha gente.

A história, porém, não precisa de testemunhas para registar os resultados.

Agora aparece o Leno.

Gosto do Leno. E talvez precisamente por gostar dele não queria vê-lo transformado numa nova bandeira de velhas e caducas influências.

Porque uma coisa é  mudar o nome do topo da lista.

Outra, bem diferente, é mudar a lógica da pradaria.

Os velhos donos, podem trocar de cavalo, mudar de sela e até escolher um novo cavaleiro.

Mas se continuarem a decidir o caminho nada mudou e os militantes sabem por onde mudar.

A questão, portanto, não é saber se Leno é melhor ou pior.

A questão é saber se Leno seria senhor do seu próprio destino se o azar da vitória batesse-lhe a porta? Felizmente que tudo aponta ao contrário!

A pradaria já viu homens tornarem-se indispensáveis, só para destruir o óbvio, que era a união em torno de uma instituição de bem, infelizmente assaltada pelos feitores da desgraça.

Já viu militantes serem convocados para defender decisões que não tomaram, e já existe o preço de se confundir lealdade com submissão.

Lord George pode continuar a caminhar pela pradaria.

Tem esse direito!

Mas a pradaria tem o direito de escolher quem o conduz.

Porque nenhum partido é propriedade privada.

Nenhum homem é insubstituível.

E nenhum líder pode entregar as rédeas e depois culpar o cavalo pela queda.

No fim, talvez o velho clérigo tivesse razão:

Quem teve o desplante de colocar essas criaturas nas listas?

Sabem a minha parábola está sendo ESCRITA.

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