Na ressaca de mais umas eleições legislativas, em que a grande vencedora foi a abstenção, importa, antes de mais, felicitar o vencedor destas eleições, Dr. Francisco Carvalho, desejando-lhe sucessos no exercício das altas responsabilidades que o povo cabo-verdiano lhe confiou.
O povo expressou, de forma soberana e legítima, a sua escolha. Em democracia, cabe-nos respeitar a vontade popular e continuar a contribuir, com sentido de responsabilidade, para o bem comum.
O meu partido, o MpD, do qual sou dirigente há 13 anos e militante há 20, teve um resultado aquém das expectativas, colocando um ponto final num ciclo de 10 anos de governação. Nesse período, o partido perdeu cerca de 40 mil eleitores, enquanto a oposição ganhou pouco mais de 2 mil novos votos. Estes números devem merecer de todos nós uma reflexão profunda, séria e responsável.
Muitos acreditaram, erradamente, que o crescimento do MpD seria feito à custa dos desiludidos do PAICV. Não foi isso que aconteceu. E essa realidade deve servir-nos de lição para o futuro.
A hora não é de procurar culpados nem desculpas para a derrota. Também não é momento de luto. É, acima de tudo, hora de luta.
Hora de lutar pelo reforço e aperfeiçoamento da nossa democracia.
Hora de lutar por um MpD mais forte, mais próximo das pessoas, mais mobilizador, mais moderno, mais renovado e mais coeso, capaz de enfrentar os enormes desafios que o país tem pela frente.
Ser oposição em democracia é tão digno quanto estar no poder. O povo deu-nos a incumbência de fiscalizar a governação do país, defender os interesses nacionais e construir, desde já, uma alternativa credível para os próximos cinco anos.
É preciso arrumar a casa, reencontrar a nossa capacidade mobilizadora e abrir um novo capítulo no MpD, com novas energias, novas ideias e novas lideranças preparadas para os desafios desta nova fase da vida nacional.
Daqui a menos de três anos teremos eleições autárquicas, num contexto que, à partida, nos é desfavorável. Ainda assim, um partido com a história, a dimensão e a responsabilidade do MpD deve ter a ambição de recuperar várias câmaras municipais e voltar a liderar a Associação Nacional dos Municípios.
A unidade e a coesão do partido são fundamentais, mas precisam de ir muito além da retórica de ocasião. A fidelidade partidária já não é o que era há 40 anos, e a perda de 40 mil votos em 10 anos é um sinal claro de que precisamos de saber ouvir mais, compreender melhor a sociedade e voltar a reconquistar a confiança de muitos cabo-verdianos.
A nova liderança do MpD, a ser escolhida pelos militantes, terá de compreender profundamente o momento político e social que o país atravessa, olhar para o partido no seu todo e colocar o interesse coletivo acima de projetos pessoais, regionais ou de grupo.
O MpD sempre soube reinventar-se nos momentos mais difíceis da sua história. E acredito profundamente que voltará a fazê-lo. Com coragem, visão, humildade, espírito de missão e confiança nas suas bases.
O futuro começa agora.


