Mostrai-nos, Senhor, os Vossos caminhos

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Fazei nascer dentro de mim um espírito firme (Sl 50,12)

          

Queridos irmãos e irmãs em Cristo!

De tempos em tempos voltamos ao mesmo lugar, mas nunca é a mesma coisa porque, supostamente, também já não somos o mesmo; teremos crescido e progredido em algum aspecto da nossa vida. Assim seja!

Assim, de novo, nos encontramos na Quaresma com os olhos postos na Páscoa do Senhor. Quaresma, esse tempo e lugar onde Deus nos espera para nos renovar interiormente e para nos recolocar na marcha da vida. O caminho da vida é feito de etapas e pedaços. No primeiro domingo da Quaresma, o salmista, com confiança e esperança, suplica: mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos (Sl 24, 4). Nada há de tão confortante como ter alguém que nos sabe indicar o caminho; sobretudo, nas encruzilhadas da vida e nos momentos de alguma desorientação e fragilidade, como este que vivemos. Precisamos de Alguém que nos oriente, que coloque um pouco de luz na nossa estrada e mais ainda, que se faça caminhante ao nosso lado.

Há sensivelmente um ano que o mundo procura o caminho para uma saída desta terrível situação que preenche o quotidiano universal. Não podemos deixar de celebrar e admirar as conquistas que os cientistas e pesquisadores ao nível da saúde têm feito para fazer frente à pandemia e conseguir a cura tão desejada. É legítimo manifestar a nossa gratidão a todos quantos, nos demais sectores da comunidade humana, conseguem avanços e recordes na prevenção e nos cuidados de saúde.

Mas nunca é de mais contar com o Senhor, Deus de misericórdia, para nos ajudar a encontrar o caminho da vida e da salvação. Os crentes têm o dever de, neste mundo, apontar caminhos: caminhos de esperança e de amor. O mesmo salmista continua a sua prece dizendo: lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças. Que a nossa Quaresma seja uma aventura de oração permanente; peçamos ao Senhor para que Ele não se afaste de nós; embora Ele nunca se tenha afastado, mas, nós é que precisamos de O sentir mais próximo. Ele continua o mesmo Deus bom e generoso, pronto a orientar os humildes na justiça.

A Luz da Ressurreição que ilumina a nossa caminhada é a certeza de nova primavera de vida e alegria. Essa Luz de Cristo que nos reconciliou com Deus, deve suscitar em cada um de nós a coragem de ressurgir das cinzas; encher-se de ânimo e voltar para o Senhor. Não terá sido por acaso que iniciamos a Quaresma com a celebração das cinzas, colocando em nossos lábios as palavras do livro sagrado: fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença (Sl 50, 12-13).

Temos diante de nós um tempo para renascer, para crescer em mais solidariedade e sermos mais verdadeiramente família. A autêntica ascese pessoal passa pela atenção aos outros. Confiantes, vamos recuperar a força da comunidade, da fraternidade, da partilha e da reconciliação para que o mundo seja verdadeiramente mais humano. «A partir do ‘amor social’, é possível avançar para uma civilização do amor. O amor social é uma força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e renovar profundamente (FT183)».

Não deixa de ser curioso o que na mensagem do ano passado, ainda sem conhecer os efeitos da Covid-19, eu dizia: «quando simbolicamente se nos convida a ir ao deserto nesta caminhada, é porque o deserto é o melhor lugar que há para darmos conta de quem somos e onde estamos. No deserto nos sentimos pequenos, mas também nele podemos desfazer do supérfluo para nos agarrarmos ao essencial. Parece-me que nunca tocamos tanto o vazio e a superficialidade como hoje». A tomada de consciência do nada que somos e que as cinzas também significam, é importante para recomeçarmos.

Prosseguimos a nossa caminhada com Cristo, buscando as razões da verdadeira esperança. Como diz o Papa Francisco na sua mensagem para a Quaresma: «Esperar com Ele e graças a Ele significa acreditar que, a última palavra na história, não a têm os nossos erros, as nossas violências e injustiças, nem o pecado que crucifica o Amor; significa obter do seu Coração aberto o perdão do Pai».

A proposta da Renúncia Quaresmal mantem-se a mesma do ano passado, já que a situação pandémica com restrições de celebrações comunitárias não permitiu o efeito pretendido. Será para apoiar a Fazenda da Esperança – que trabalha na recuperação de pessoas com toda a espécie de dependência (álcool, droga, etc.); Ousemos a solidariedade que é fruto do amor de quem espera em Deus, porque «só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são verdadeiramente integrados na sociedade» (cf. FT187).

Votos de uma boa caminhada para a Páscoa, e que São José, homem justo e obediente, interceda por nós para seguirmos pelos caminhos do Senhor!

NR. Mensagem do Bispo Dom Ildo, para a Quaresma 2021, publicada originalmente no seu Facebook pessoal.

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