MPLA em trambolhão

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Seguindo o estilo típico de muitos países africanos, teimosamente, com as sequelas da guerra e com uma democracia de papiro, folhas mofas de inverno e a liberdade de imprensa numa gaiola da caserna dos quartéis, e com o MPLA dominando há 47 anos o poder em Angola, resolveu-se, porém, a partir de 2008, dar de oferta ao povo um cheirinho de liberdade. Pois! Introduziu-se a competição de partidos políticos, com o MPLA impondo sempre a música da sua orquestra. Com o tempo e com a raiva o domínio começa a perder força! Estranhamente, a cada eleição o MPLA perdia, nem mais nem menos, os exactos 10 %. Em 2008, o MPLA obteve 81, 76%, em 2012 caiu para 71%, em 2017 caiu 61% e em 2022 – com 97,03% de votos apurados – o MPLA está com 51.07 % (sempre com a milagrosa queda de 10%) e UNITA com 44.05%.
Um trambolhão progressivo do MPLA sempre com os exactos e fixos 10% em cada eleição.
Estavam inscritos para as eleições de 24 de Agosto de 2022 cerca de 14 milhões de eleitores. Votaram 6,4 milhões, compondo uma taxa de abstenção de 55%.
Com os resultados provisórios, a UNITA está com mais 17.38% de votos do que das eleições de 2017 e garantiu já uma vitória espectacular em Luanda, capital do país.
Entretanto, ela discorda dos resultados anunciados pela Comissão Nacional Eleitoral. Com base nos dados das actas recolhidas nas assembleias de votos, Adalberto Costa Júnior afirma, de forma categórica, que “a UNITA não reconhece os resultados provisórios divulgados pela CNE”, e que “o MPLA não ganhou as eleições do dia 24 de Agosto” e exigiu, como solução, a criação de uma Comissão com a participação internacional. O propósito é para se confrontar os resultados das actas na posse da Unita e os resultados das actas que a CNE diz estar na sua posse.
De momento, acredita-se que se caiu num impasse, porque não vejo a CNE e o MPLA a aceitarem a exigência da Unita.
Contudo, parece claro que, independentemente do desfecho do protesto e exigência da UNITA, os resultados provisórios confirmam já um ganho político enorme por parte da Unita nestas eleições. Está com um resultado de 44.05%, como se disse um aumento de 17.38% em relação às eleições de 2017, contra 51.07% do MPLA. A Unita massacrou o MPLA em Cabinda. Ela obteve 68.55% contra 26.36% do MPLA. A Unita ganhou forte no Zaire, obtendo 52.01% dos votos contra 36.25% do MPLA.
Com certeza que é na Província de Luanda, capital de Angola, que a UNITA saiu a brilhar. Aqui o desempenho do partido e do Alberto Costa Júnior ultrapassou todas as expectativas. A UNITA em 2017 obteve 757 (35.24%) mil votos e agora os resultados provisórios dão-lhe mais do que 1.23 milhões de votos (62.59%). O MPLA tinha em Luanda em 2017 1.028 milhões de votos e agora está com apenas 650 mil votos. Com a UNITA com 62.59% dos votos na capital contra 33.31%, confirma-se que o MPLA sofreu uma derrota estrondosa em Luanda, onde concentra-se cerca de 4,6 milhões de eleitores de Angola, correspondendo a 33% de todo o eleitorado do país. Com
estes resultados não pode haver leituras diferentes! Apesar de tudo, a UNITA obteve um excelente resultado e parece de forma clara e cristalina que o eleitorado de Angola, depois de 47 anos de poder do MPLA, e num país riquíssimo, onde os diamantes não conseguem colocar um prato de sopa sobre as mesas do povo, demonstrou estar de costas voltadas ao MPLA.
E nota-se que as pessoas estão com raiva, a rondar o sentimento de ódio.
De todo o modo, fica a intrincada questão: como é que um povo com esses sentimentos vota na continuidade do poder?