Ontem participei numa passeata de carro, organizada por cubanas residentes na Praia para homenagear os milhares de valentes que no dia 11 de julho de 2021 saíram á rua em várias cidades cubanas, a manifestarem pacificamente, pedindo liberdade, democracia e comida, dada a situação catastrófica económica e politica, em que basicamente, apenas sobrevivem.
Desses milhares de cubanos que saíram à rua só para dizer que têm fome e que querem liberdade e democracia, que querem falar, intervirem na vida social e política do país, perto de um milhar foram presos, acusados de desobediência civil e dissidência. julgados e condenados com pesadas penas de prisão, que nalguns casos, chegam a 20 anos de cárcere …Sem contar com a forma como foram tratados pelos agentes da segurança que muitas vezes vestidos à civil, usaram e abusaram de bastões, e paus … já presos foram torturados física e psicologicamente.
Nós aqui em Cabo Verde, onde optamos por viver em liberdade e democracia, e onde há liberdade de manifestações com Proteção Policial, dificilmente conseguimos compreender ou melhor imaginar o que atualmente se passa em Cuba, onde o regime ditatorial está no poder há mais de 60 anos.
Ontem o que vi – a reação do “marido” da embaixadora e de um representante cubano, quando passávamos a frente da Embaixada de Cuba na Praia, mesmo com a presença da nossa polícia, impactou-me e deu para ter uma ideia da repressão que sofrem em Cuba, os que ousam discordar – o que consta ser marido da embaixadora e outro cubano, enquanto desfilávamos, adotaram uma atitude intimidatória, filmavam e faziam gestos manifestamente obscenos, carregados de odio machista para as mulheres participantes na passeata. A postura que adotaram, além de misógina parecia ser um apelo, ao confronto físico…a atitude apenas mostrou a verdadeira face e o total desrespeito pela diferença. As imagens da ignominia, falam por si.

Comportam-se aqui, como se comportam em Cuba, quando, disfarçados de civis, os agentes de segurança, acossam assediam e maltratam as mulheres indefensas, que pedem liberdade para os presos políticos ou reclamam qualquer direito humano. Mostraram a mesma face que têm em Cuba quando agridem a adolescentes, jovens, adultos e idosos, sem dó nem piedade e cobardemente, prendem para depois, em julgamento fantoches, os condenarem.
Tinha mais cubanos, alguns chamados cooperantes médicos a filmar para enviar certamente para os seus serviços de segurança, provas e caras dos “contrarrevolucionários cubanos” no nosso país. Afinal serão simplesmente médicos muito bem pagos pelo governo de Cabo Verde, ou terão outras incumbências? No tempo colonial/fascista seriam chamados de bufos, creio que agora continuam a ser bufos, e mais nada.
Os milhares de cubanos que disseram aos ditadores que já é tempo de mudança, as várias centenas que foram presos e condenados com penas duríssimas por UNICAMENTE, participarem na manifestação pacifica de 11 de julho de 2021, merecem muito mais, mas ontem, os poucos que saíram aqui a rua, representam também, os muitos que mesmo estando longe desse poder ditatorial, mesmo estando em Cabo Verde a léguas de distância, conseguem ser intimidados, excluídos, proibidos de viajar a Cuba, ou temem outras formas de represália, que incluem aquelas que envolvem os familiares que ainda estão em Cuba – “tenho ainda os meus pais e irmãos lá e nunca se sabe o que pode acontecer-lhes,” …“se participar nunca mais poderei ir a Cuba” etc etc, Nós “SOS Cuba Cabo Verde” continuaremos insistindo, denunciando, porque o povo cubano, as nossas famílias que la vivem merecem que mantenhamos uma pedrinha no sapato desses ditadores.
Uma coisa, no entanto, é certa, podemos ser solidários com o povo cubano, aqui em Cabo Verde ou em qualquer outra parte do mundo e isso está a acontecer quase todos os dias, mas só os cubanos em Cuba é que terão sempre a última palavra a dizer, a última ação para por fim a uma ditadura que já não serve a população cubana, pior, que vive sugando o sangue desse povo trabalhador.