Algures neste trabalho recentemente publicado, convido a recordar que os Estados Unidos da América reconheceram a Independência de Cabo Verde logo no dia 5 de Julho de 1975 e que, a 18 de Novembro de 1976, “Melissa Wells é acreditada como a primeira Embaixadora americana em Cabo Verde, conquanto tivesse residência em Bissau. A Embaixada americana na Praia começa a funcionar a 28 de Janeiro de 1978, tendo à frente um Encarregado de Negócios ad interim. O primeiro Embaixador residente apresentou as suas Credenciais a 26 de Abril de 1983.”
Todos conhecemos o prédio onde a Embaixada tem funcionado, no Plateau, desde sempre.
Quando esse país amigo decide (e será desconcertante para muitos descobrir quando é que tal decisão terá sido tomada…) construir, de raiz, as instalações definitivas da sua Representação Diplomática em Cabo Verde está a emitir um sinal muito claro, inequívoco.
A tendência, no mundo de hoje, é para encerrar Embaixadas, racionalizar a rede de representações. Ora bem! Tal sinal deve ser lido, serenamente lido. Os dados de análise devem ser conjugados, entrecruzados, percebidos. Debatidos. Consensualizados, se a maturidade democrática tal permitir.
Sobretudo, não perder de vista que, nas relações entre Estados, será pueril acreditar em pontas soltas.
No 4 de Julho de 2008, tive a honra de estar na cerimónia de inauguração das novas instalações da Embaixada dos EUA na Alemanha. Lembro-me que Washington fizera-se representar por um antigo Presidente, George H. W. Bush, personalidade com forte contributo histórico no processo da Reunificação alemã. A seu lado estava, nessa inauguração, a Chanceler Angela Merkel. Ora, tais instalações, à Pariser Platz, harmoniosamente inseridas no conjunto, estão a curtíssima distância do Bundestag (Parlamento)…
Do nosso lado, do lado cabo-verdiano, urge apurar se estaremos a emitir os sinais mais acertados. Se estaremos, ao menos, a ter presente que todos os sinais são lidos.
Ao longo dos anos, alguma vez a gestão urbanística se preocupou em reservar tratos de terreno para as Embaixadas? Não! Tudo tem acontecido mais ou menos a esmo. E não é apenas em relação a este aspecto específico. Por exemplo, alguém se tem chocado com a ‘asfixia’ a que vai estar sujeita a Residência Oficial do Presidente da República, na Prainha? A ‘troca’ do ‘Quartel Jaime Mota’, a mais emblemática edificação militar nesta cidade, por um hotel não se teria traduzido em sufocar o Palácio da Presidência da República?
Ou seja, navegamos sempre por entre muitos pesos e muitas medidas. Ou seja ainda, tratamos com proverbial ligeireza a segurança dos Órgãos de Soberania.
Até que. Até que se fale da construção das futuras instalações da Embaixada dos Estados Unidos da América. Só então todos se revelam muito ciosos. Ora! Já vai ficando evidente que, sempre e quando há um assunto que se relacione com os EUA, como que se instala um ambiente de desconforto, de desconfiança, de pruridos.
Será a primeira vez em Cabo Verde e no mundo que se procede à demolição de um edificado para favorecer algo novo, diferente, com um outro potencial transformador para o conjunto urbanístico? As alternativas e os efeitos não terão sido sempre acautelados? A deslocalização do ‘Liceu Cónego Jacinto’ será o principal drama da Educação em Cabo Verde?
Convém parar, respirar fundo, destrinçar o fundamental do acessório, descortinar a floresta para além da árvore, credibilizar-se na capacidade de contribuir para a melhor projecção e defesa do interesse comum, nacional. E é óbvio que uma dimensão dessa ‘melhor defesa’ é a coerência nas tomadas de posição.
Ou será que a sensatez foi de férias num dia assim?