No luxo do lixo e metidos dentro de buracos nas estradas e campos relvados, Praia tem o presidente que merece

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[1]Cabo Verde já soma décadas suficientes de democracia para que quase todos saibam — ou finjam não saber — distinguir as responsabilidades de cada órgão do poder, especialmente entre o que cabe à Câmara Municipal e o que cabe ao Governo. Sen tuntuni, com compra ou sem compra de votos — porque isso também faz parte do folclore democrático das ilhas[e que não faltem pernas, bifanas e kotxi pó — amém!]—, a Praia decidiu, em plena e absoluta liberdade, votar massivamente em Francisco.

[2]E, como a democracia não admite devoluções, é nosso dever aceitar o produto final tal como vem: uma cidade metida em buracos, aromatizada pelo lixo, relvados dos campos em estado filosófico, zonas nobres transformadas em feudos imobiliários de camaradagem, obras suspensas em homenagem ao eterno “já vão retomar” e uma Câmara Municipal a gerir tudo isto com a modesta soma de 30 milhões de euros.

[3]Sendo assim, se um munícipe achar que, por Francisco ter feito 72 casas de banho numa cidade com 150.000 habitantes, gastando 150 milhões de euros — o equivalente a cinco anos de orçamento municipal —, é exatamente assim que ele sonha a cidade da Praia, meu caro leitor, temos de aceitar. Mais ainda: temos de parabenizar esse munícipe por amar tanto assim a cidade da Praia. E, para não ser um estraga-prazer, resta-me apenas desejar que a minha cidade continue a crescer… exatamente como está.

[4]Portanto, sem indignações tardias e sem choros cívicos, como já dizia o nosso grande pensador dos becos do subúrbio, Heavy H: “aguenta”. Pamodi, a Praia não está abandonada — está apenas a viver o resultado fiel das suas escolhas. Afinal, em democracia, cada cidade escolhe exatamente o Presidente que merece.