A nota de imprensa divulgada pelo Fundo Monetário Internacional após a missão realizada a Cabo Verde, entre 21 e 24 últimos, está a gerar interrogações entre observadores da economia nacional
Embora o FMI reconheça que a economia cabo-verdiana continua a apresentar um desempenho sólido, o comunicado afasta-se do tom habitualmente otimista das missões anteriores e omite qualquer referência à continuação das revisões do programa ou à possibilidade de um novo desembolso financeiro.
A diferença de linguagem não passou despercebida. Em comunicados anteriores, era frequente o FMI concluir as missões reafirmando a boa execução do programa e apontando para os passos seguintes. Desta vez, a instituição limita-se a sublinhar a necessidade de preservar a disciplina orçamental, evitar medidas com impacto orçamental permanente e manter a sustentabilidade das finanças públicas.
A coincidência temporal levanta inevitavelmente algumas questões. O Governo do PAICV prepara um Orçamento Retificativo e anunciou medidas de forte impacto social e orçamental. Terá o FMI já tido acesso às linhas gerais dessas propostas? Estará a instituição a manifestar, de forma diplomática, reservas quanto à orientação da política económica? Ou trata-se apenas de um comunicado de natureza introdutória, sem ligação direta ao programa em curso?
Outra circunstância considerada invulgar foi a ausência da habitual sessão aberta de perguntas dos jornalistas à equipa do FMI após a missão. Em missões anteriores, esse momento permitia esclarecer dúvidas sobre o estado das negociações e as perspetivas do programa. Desta vez, a comunicação social não teve acesso à sala onde decorreram os trabalhos, limitando significativamente a possibilidade de obter esclarecimentos adicionais.
Nenhum destes elementos permite concluir que o programa com o FMI esteja em risco de ser interrompido. Contudo, a conjugação de um comunicado mais cauteloso, da ausência de referências a desembolsos e do contexto das novas opções de política económica torna inevitável o surgimento de dúvidas sobre o rumo das relações entre Cabo Verde e o FMI.
Os próximos desenvolvimentos, nomeadamente a apresentação do Orçamento Retificativo e as futuras posições oficiais do FMI, deverão esclarecer se estas diferenças representam apenas uma mudança de contexto político ou o início de divergências mais profundas entre as autoridades cabo-verdianas e a instituição financeira internacional.

