O Bispo, o sonho e a derrota anunciada

No lusco fusco do amanhecer acordei com uma inquietação estranha. No lusco fusco do entardecer, quando as pálpebras começaram a dar sinais de sonolência dei por mim a cogitar se aquilo que tinha vivido era verdade ou mentira, sonho ou realidade.

Talvez tenha sido sonho por noites mal dormidas, quiçá insônias minhas.

– Tony precisas tratar a tua higiene mental dizia o meu ego.

Ou talvez não.

O certo é que o Bispo me tinha dito , com aquela serenidade própria de quem parece conversar com Deus e com a razão antes de abrir a boca.

– Tony , por favor não coloquem aquelas criaturas nas listas para as legislativas. Por favor.

Não vou dizer quem era o Bispo. Nem seria prudente. Também não direi quem são as criaturas aludidas.

Afinal , isto é uma crônica e não, um auto de denúncia. E, como gosto de ficcionar, concedo ao leitor a liberdade de escolher os personagens.

– Tony, oh Tony, coloca juízo nessa cabeça dizia a minha força interior.

O Bispo, na sua paz de espírito e na sua douta sapiência, aventava a possibilidade de uma derrota. Dizia-me que talvez fosse necessário um alerta , uma homilia qualquer sobre os perigos de certas escolhas e sobre o impacto que determinadas figuras poderiam provocar perante uma sociedade cada vez menos paciente com os pecados dos políticos.

Confesso que fiquei perturbado.

Não pela homilia que nunca aconteceu.

Pelo diagnóstico, quiçá!

Pensava eu, que talvez estivesse diante de um homem da igreja a exercer aquilo que os franceses chamam “nobless oblige “: a obrigação moral de quem , pela posição que ocupa, sente que não pode ficar indiferente quando vê aproximar-se o precipício.

E eu Tony?

Eu seria apenas o intermediário.

Talvez o homem dos bons ofícios.

Talvez o militante que, na imaginação do Bispo, ainda , tivesse alguma influência junto do chefe do partido.

Errado estava!

O problema é que o chefe parecia amarrado, manietado, chantageado e cercado por forças que contrariavam o óbvio.

E quando a política começa a contrariar o óbvio , geralmente o óbvio acaba por cobrar a fatura.

Na minha ilha,dizia-se que perder já não era uma possibilidade. Era quase uma certeza com data marcada.

Mas eu ainda acreditava.

Acreditava por romantismo político.

Porra, agora me lembro que sou um romântico na política!

Sempre fui um pouco assim: um político politicamente correto, se me permitem o paradoxo . Um doador de sangue na política, sem pretensões de fazer da política uma profissão.

Nunca quis fazer parte daquele exército de profissionais que confundem o partido com a própria certidão de nascimento e a liderança como uma espécie de propriedade privada.

Acordei e, encontrei novamente o Bispo.

Ou talvez tenha sido o meu próprio pensamento vestido de Bispo.

Disse-me que sabia que a derrota anunciada tinha sido consequência de alguma teimosia, de alguma ausência de liderança e, sobretudo, da incapacidade de perceber que há momentos que renovar não é trair: é sobreviver.

Não quis discutir.

Seria inútil!

Até porque há discussões em que a razão chega primeiro e eu desisti de ser burro a nascença.

Quase que lhe disse que a política e a religião juntas dariam uma excelente tese sobre o ANTI CRISTO.

Mas calei-me.

Não estava preparado para discutir teologia com quem parecia ter acabado de me dar uma aula de ciência política.

O Bispo falava.

E eu ouvia.

Falava de uma estratégia que parecia acreditar mais na derrota. De uma liderança que,em vez de preparar o futuro , parecia administrar o passado . De um projecto de cidadania que precisava de ser sufragado por cidadãos e não apenas por estruturas, aparelhos e pequenos exércitos de fiéis.

Não quis acordar.

Porque já estava acordado.

Queria apenas viver o pesadelo até ao fim.

E o pesadelo tinha uma particularidade curiosa: a derrota estava anunciada antes de acontecer.

Propalada.

Pressentida.

Talvez até desejada por alguns que deveriam combatê-la.

Era uma espécie de poder que morreu sem ter chegado a ser verdadeiramente decisório.

Uma liderança que , em algum momento da sua caminhada, talvez tenha começado a sofrer daquela doença política para a qual ainda não inventaram a vacina: a síndrome do “ Eu sou o líder”.

É uma doença perigosa.

Porque quando alguém passa a acreditar que é o partido, deixa de ouvir o partido.

E quando deixa de ouvir o partido, normalmente começa a ouvir apenas aqueles que lhe dizem aquilo que deseja ouvir.

Foi então que acordei definitivamente.

Olhei para o espelho e fiz a pergunta que talvez devesse ter feito a muito antes:

Sou crente ou sou militante?

E conclui que talvez fosse as duas coisas.

Crente nos valores.

Militante das ideias.

Mas não devoto das pessoas.

– Tony és inteligente dizia o “eu” na briga com o “ego”.

Porque partidos políticos não são igrejas, líderes não são santos e militantes não são fiéis destinados a aceitar dogmas sem direitos a dúvidas.

A política precisa de heresia.

A heresia saudável de quem pergunta.

De quem discorda.

De quem alerta.

De quem diz que o rei pode estar nu mesmo quando todos à volta fingem admirar a qualidade do seu fato.

E o mais curioso é que as figuras do Bispo no meu sonho, continuam atentas e ativas.

Mesmo depois da derrota.

Mesmo depois do hecatombe.

Mesmo depois de a realidade ter confirmado aquilo que o sonho antecipara.

Continuam disponíveis para liderar uma instituição que clama por renovação.

Talvez seja esse o verdadeiro mistério do meu sonho ou talvez seja apenas a política.

Não quis desrespeitar o bispo .

Por isso, não digo o seu nome.

Também não digo quem são as criaturas.

E faço questão de declarar que tudo isso é ficção.

Uma fantasia.

Um sonho real.

Ou uma realidade sonhada.

Afinal, como gosto de ficcionar , peço perdão aos meus leitores por não ter tido o poder decisório de decidir que o meu partido não era o meu “umbigo”.

Porque partido não é “umbigo”.

Partido é causa.

É memória.

É futuro.

É cidadania.

O Bispo talvez tenha sido apenas personagem da minha imaginação.

Mas o alerta , esse, talvez não seja.

E é aí que termina o sonho ou começa a realidade.

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