A nova organograma do Governo de Cabo Verde voltou a fundir, no mesmo ministério, as pastas da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto. Esta reestruturação orgânica representa um retrocesso estratégico flagrante, onde o desporto cabo-verdiano surge, mais uma vez, como o elo mais fraco e o sacrificado de serviço no xadrez político.
A publicação da nova orgânica do executivo trouxe consigo um amargo sentimento de déjà vu para o setor desportivo nacional. Ao remeter o Desporto para um megaministério que acumula a Cultura, as Indústrias Criativas e a Juventude, o elenco governamental não opera uma mera arrumação administrativa. Promove, sim, um manifesto esvaziamento político de uma área que provou ser um dos maiores vetores de orgulho, coesão social e diplomacia económica do nosso arquipélago.
A Ilusão da Transversalidade
Os defensores deste modelo apressar-se-ão a evocar as “sinergias naturais” e a “transversalidade” entre os jovens, a cultura e a atividade física. Trata-se de uma falácia retórica. Na prática governativa cabo-verdiana, fundir pastas com dinâmicas e exigências tão distintas resulta, invariavelmente, na asfixia daquela que carece de maior investimento estrutural.
A Cultura e as Indústrias Criativas possuem, por direito próprio, um peso e uma urgência mediáticos esmagadores no país da morna e dos festivais. Quando colocadas no mesmo prato da balança orçamental e decisória, o Desporto deixa de ser uma prioridade macro estratégica para passar a ser gerido como uma mera atividade de tempos livres ou um apêndice da juventude.
O Custo da Perda de Autonomia
O desporto moderno não se compadece com tutelas de segunda linha ou atenções divididas.
Falar de desporto em Cabo Verde hoje é falar de:
Alta competição e a gestão exigente das federações nacionais.
Diplomacia desportiva que eleva o nome das nossas ilhas além-fronteiras.
Infraestruturação deficitária que ainda afeta vários municípios.
Economia do desporto, turismo desportivo e captação de investimento privado.
Ao diluir a tutela desportiva num superministério, perde-se o foco. Perde-se a voz direta no Conselho de Ministros. Perde-se, fundamentalmente, a capacidade de negociar orçamentos robustos e de executar reformas legislativas urgentes que o setor reclama há anos.
O Instituto do Desporto e da Juventude (IDJ), por mais esforçado que seja, necessita de uma liderança política exclusiva e forte ao nível do topo para romper as amarras da burocracia estatal.
Um Travão no Desenvolvimento Coletivo
Num país com a nossa pirâmide demográfica, onde a juventude e o desporto deveriam ser encarados como pilares de saúde pública, prevenção social e inclusão, esta decisão é um contrassenso.
Nossos atletas, que tantas vezes competem em condições de enorme sacrifício para trazer medalhas e dignidade ao país, mereciam um sinal claro de valorização.
Reduzir o desporto a uma subpasta partilhada é ignorar o seu potencial económico e o seu papel na formação de cidadãos.
Cabo Verde perde a oportunidade de profissionalizar o setor e de o colocar no centro da agenda de desenvolvimento nacional.
O novo organograma falha por falta de ambição e por excesso de centralização. O desporto cabo-verdiano não precisa de ser o “parente pobre” da Cultura. Carece de autonomia, de orçamento próprio e de uma orgânica que reflita a sua real grandeza social.
Ao insistir no erro de o remeter para a sombra de outras áreas, o governo assina uma certidão de menoridade ao setor, cujos custos — em falta de infraestruturas, menor apoio ao associativismo e estagnação da alta competição — não tardarão a fazer-se sentir nas quadras, nas pistas e nos relvados da nossa nação.


