O jogo de sombras

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Até fins de 2022 tínhamos um coro de vozes, estridentes, sobre o fecho das fronteiras e a humilhação sofrida para obtenção de um visto em longas filas de espera e … em dois anos a cantiga mudou radicalmente para um país quase vazio. Agora é hora do abandono em massa, para explicar quase tudo. E na ladainha não cabe o esforço para demonstrar o milagre de ausência de qualquer efeito na economia e no rendimento das pessoas o crescimento de 7,1% em 2021, de 15,8% em 2022, de 4,8% em 2023 e de 7,3% em 2024. E nem o aumento consistente das exportações (61%,9 % em 2023 e de 40,7% em 2024). Também não cabe o facto de o INE ter estimado para 2022 uma população residente constituída por 506.595 pessoas, 509.078 para 2023 e 511.534 para 2024.

Temos assistido a um alinhamento de narrativas com recursos a argumentos presuntivamente técnicos para desvalorizar a redução significativa do desemprego para 8% e a graduação do país pelo Banco Mundial como país de rendimento médio alto, assente no aumento considerável do PIB per capita. Ninguém pode ignorar que houve uma revisão em baixa da população resultante do censo de 2021, fundamentalmente dada por dois fatores referenciados no inquérito: significativa emigração entre 2010 e 2021 e a diminuição significativa da natalidade.

A partir daqui (e pondo de lado a emigração de 2010 a 2015, ocorrida, portanto, em tempo inconveniente) começou a narrativa segundo a qual todos os números bons que atestem o bom desempenho do governo devem ser “explicados”, com exclusão da causa mais provável: boas políticas públicas (que a comunidade internacional e as estatísticas têm elogiado). O “abandono em massa”, repetido em tom de ladainha, serve na perfeição para desconstruir o mérito das políticas públicas, desde que embrulhado em expedientes com alguma cientificidade. A ideia é simples: os mais pobres fogem do país e o anémico crescimento económico registado quando dividido por uns poucos privilegiados que ficam no chão quase deserto dão um rendimento por cabeça elevado. Não temos muito crescimento, temos é pouca gente! O pouco dividido por mais pouco ainda …é igual a muito. No fundo, são as más políticas que têm alimentado as boas estatísticas! E esta ladainha é repetida aqui e na diáspora, ad nauseam, até se tornar verdade indiscutível.

E explica quase tudo, só não explica o crescimento do PIB e a redução da pobreza. Sim, não explica a redução da pobreza extrema e da pobreza absoluta porque é dos livros que, em regra, os mais pobres não emigram, por falta de recursos para financiamento das despesas que isso acarreta. Emigram normalmente os remediados! Na luz fica a narrativa conveniente, e na sombra ficam os números que a suportam. A narrativa ornamentada com retóricas de tecnicidade, assenta num desejo, numa convicção ideológica, para extrair conclusões convenientes, deitando fora números inconvenientes. Na verdade, ficam na sombra, na mais funda sombra: qual era o PIB em 2015? Qual o número de residentes estimado? Qual o PIB de 2024? Qual o número de residentes estimado? Só depois desse mínimo, seria legítimo extrair tais conclusões. Ou seja, tudo que podia sustentar a tese ou denunciar a sua falácia é convenientemente escondido! Pois claro!