Primeiro escreve o jornal. Depois fala o protagonista. E, como por magia, ambos contam exatamente a mesma história. Coincidência? Claro que não. É guião.
O filme é simples: o jornal lança a bomba, fala em “fontes”, “esquemas”, “planos”, “juízes corrompidos” e “prisão iminente”. Tudo sem um único documento, sem um único nome, sem uma única prova. Depois entra Francisco Carvalho em cena, com ar grave, para dizer: “posso ser preso”, “estão a politizar a justiça”, “estão a perseguir-me”.
Ou seja: primeiro sujam as instituições, depois fazem-se de vítimas da sujidade.
Isto não é coragem. É truque velho.
Se amanhã a justiça decidir alguma coisa, Francisco já tem a desculpa pronta: não foi porque fez asneira, foi porque o governo mandou; não foi porque há indícios, foi porque o odeiam; não foi justiça, foi conspiração.
É a cartilha do populismo: atacar o árbitro antes do jogo.
Francisco está assessorado e paga 400 contos mensais, desde as autárquicas a 4 brasileiros (o que dá 1.600 contos mensais). E quem o assessora sabe muito bem que, em ambientes onde muita gente ainda confunde emoção com verdade, o papel de coitadinho rende votos.
Por isso ele fala para o “povão”, mas pensa como profissional.
Convém dizer isto sem rodeios:
ninguém é investigado por ser político. É investigado porque há suspeitas.
Ser presidente de câmara não é certificado de inocência.
Outra verdade simples: o Ministério Público não recebe ordens do governo. Juízes não trabalham por encomenda. Processos não nascem em redações de jornais.
Quando alguém diz que tudo é perseguição, está a dizer, na prática, que só aceita decisões da justiça se lhe forem favoráveis.
Isso chama-se desprezo pelas instituições.
Comparar-se a Mandela ou Luther King por causa de problemas de gestão municipal é tão exagerado que chega a ser caricato. Aqueles lutaram contra ditaduras. Francisco luta contra auditorias.
Pode parecer ridículo. Mas é perigoso.
Porque normalizar esta conversa é ensinar que qualquer arguido pode gritar “perseguição” e pronto: está absolvido na praça pública.
Cabo Verde não pode aceitar este tipo de expedientes porque ultrapassa todos os limites.


