O Mal do Suicídio em Cabo Verde: Uma Epidemia Silenciosa

0

Josué, bu prima mata kabesa…”

Foi uma das frases mais terríveis que ouvi até aos dias de hoje, enquanto estudava no Seminário Nazareno de Cabo Verde, em 2000, se a minha memória não me falha.

Atualmente, mais do que nunca, a busca por alívio da dor, do vazio e da sensação de falta de propósito na vida tem sido um desafio enfrentado por muitos. Vivemos numa era marcada por intensa ansiedade e exigências, onde o tempo parece distorcido e os dias sucedem-se sem trazer mudanças significativas para muitos. Cada vez mais, observamos uma disparidade gritante entre aqueles que têm acesso a recursos materiais e apoio emocional e os que permanecem sem esperança e suporte.

Embora haja uma multiplicação de eventos de entretenimento e ocupação de tempo, promovidos tanto pelos poderes governamentais como privados, paradoxalmente, vemos um aumento gritante na tristeza e na angústia das pessoas. Parece que estamos a investir mais em atividades do que nas próprias pessoas, priorizando a distração da juventude em detrimento do seu desenvolvimento pessoal, amadurecimento emocional e estímulo à vitalidade.

Recordo-me dos anos 90, quando os jovens da minha comunidade em Luzia Nunes, na ilha do Fogo, iam para São Filipe a pé, porém com entusiasmo e determinação a fim de buscar educação e sucesso na vida. Hoje, entristece-me constatar que muitos jovens têm também esforçado, mas ainda não encontraram o devido apoio para poderem progredir na vida, estão cada vez mais desmotivados, exaustos e impacientes.

Porém por outro lado, um número considerável, almejam tudo, mas nem sempre estão dispostos a lutar por isso, prolongando a sua dependência dos pais até aos 25, 30 anos e além, sem o ímpeto de formar família ou compartilhar as suas vidas com outros.

Tragicamente, nos últimos meses, testemunhamos um aumento preocupante no número de jovens e adultos que optaram por encerrar as suas próprias vidas em Cabo Verde. Essas perdas dilaceram os nossos corações e levam-nos a refletir sobre o que está a acontecer connosco. Uma pergunta que não se cala: Quantos mais podem estar contemplando o mesmo destino neste exato momento?

É urgente que reconheçamos esta realidade e ajamos com determinação. Devemos prestar atenção especial aos jovens, frequentemente confrontados com desespero e temor pelo futuro, carregando o fardo do vazio e da falta de propósito. Muitos não desejam morrer em si, mas querem apensa aliviar a dor que consome as suas almas.

É fundamental identificar os sinais de sofrimento emocional e oferecer suporte antes que seja tarde demais. Precisamos fazer mais, adotar medidas vitais, como educar sobre saúde mental, facilitar o acesso a profissionais qualificados, promover o bem-estar emocional e construir redes de apoio.

Ainda estamos a tempo de agir. Não podemos permitir que mais vidas sejam perdidas para a escuridão da depressão e da desesperança. Toda a comunidade, desde o governo central e local, às igrejas e a todas as forças vivas, todos estes intervenientes têm um papel a desempenhar na construção de uma comunidade mais solidária, compassiva e proativa, onde ninguém se sinta só ou sem esperança.

Portanto, devo dizer também que existe sempre esperança, mesmo nos momentos mais sombrios. O amor próprio, a resiliência e sobretudo a fé em Deus são poderosos meios de superação. Mesmo quando parece que não há saída, é importante alertar que o suicídio nunca devia ser escolhido como uma opção. Há sempre um caminho diferente, que nos leva para a verdadeira luz, para a cura real e para a vida plena; este caminho é Jesus Cristo.

Sendo assim, precisamos fortalecer a nossa resiliência e confiar na promessa de Jesus. Quando Ele nos diz em Mateus 11:28: ” Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.”

Deus abençoe!