O Partido Único não pode ser matéria de orgulho

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Ouvi com atenção o discurso recente do Presidente Pedro Pires no Congresso do PAICV. Como cidadão atento à história política do nosso país e como defensor convicto da democracia, não posso deixar de partilhar algumas reflexões que considero relevantes para o debate público.

Pedro Pires é, indiscutivelmente, uma das figuras mais marcantes da história de Cabo Verde. Desempenhou papéis centrais na luta pela independência e na consolidação do Estado soberano. O seu percurso é digno de respeito. E, de facto, muitos dos pontos por si levantados no referido discurso merecem concordância — especialmente quando destaca a importância da estabilidade, da soberania e da responsabilidade política.

No entanto, uma afirmação em particular exige crítica frontal: a de que tem orgulho do período do partido único. Esta declaração, vinda de quem declarou a abertura democrática e se elegeu já em sistema multipartidário, representa não apenas uma contradição, mas uma falha de leitura histórica e política.

O regime de partido único em Cabo Verde, como em tantos outros contextos africanos e mundiais, significou a supressão das liberdades fundamentais. Foi um período marcado por silêncio forçado, vigilância ideológica, ausência de imprensa livre e marginalização dos que ousavam pensar diferente. A democracia, o pluralismo e a cidadania ativa foram, nesse período, sistematicamente adiados ou negados.

Dizer-se orgulhoso desse modelo, à luz do que hoje sabemos e vivemos, é não reconhecer que a transição democrática, nos anos 90, foi não apenas necessária, mas inevitável. O mundo do final dos anos 80 exigiu uma leitura lúcida: o colapso da Guerra Fria, o fim do modelo soviético, as mobilizações populares em África e na Europa de Leste, tudo apontava para o esgotamento do autoritarismo, mesmo quando travestido de idealismo revolucionário. Cabo Verde, felizmente, soube ouvir os sinais dos tempos. A abertura política foi uma vitória do povo cabo-verdiano — e também uma decisão de liderança com visão.

É por isso lamentável que, em pleno 2025, se tente reabilitar o partido único como algo de que se deva orgulhar. Não se trata de negar os feitos da independência ou os desafios da construção nacional — trata-se de distinguir entre uma etapa do processo histórico e a sua glorificação acrítica. O verdadeiro estadista é aquele que reconhece que todo o poder concentrado, sem limites nem alternância, é sempre risco de abuso.

Estive uma vez com o Comandante Pedro Pires e guardei desse encontro uma impressão de sabedoria e serenidade. Por isso, talvez esperasse mais. Não um arrependimento político — que ninguém exige — mas um gesto de humildade democrática, que educasse as novas gerações para o valor da liberdade, da alternância e da crítica plural.

A história não se glorifica — estuda-se, interpreta-se, aprende-se. E o partido único, com tudo o que representou, deve permanecer como uma lição sobre os perigos da unanimidade forçada, e não como um legado de orgulho nacional.

É também por isso que tenho chamado insistentemente a atenção de Cabo Verde — e do mundo democrático — para o perigo que representa a ascensão da dupla Francisco Carvalho e Janira Hopffer Almada. O discurso de ambos tem sido marcado por apelos às massas populares, soluções fáceis e polarização emocional. Essa retórica populista, descolada da responsabilidade institucional e baseada em revisionismos perigosos, ameaça os alicerces da nossa democracia e deve ser criticada com firmeza e lucidez.

4 COMENTÁRIOS

  1. O comandante de certeza está a referir-se no passado. Orgulha-se do partido único naquele momento histórioco que era preciso primeiro consolidar a independência. Isso aconteceu com todos os ex. Paises que foram colonizados pelo regime português naltura, até porque, eram apoiados pela ex União Soviética que os deu todo apoio para a luta para a independência.

  2. É uma pena, mas entende-se e se apercebe que não fosse a renitente ou teimosia de uma figura, também Combatente da Liberdade da Pátria, que já não se encontra entre nós a insurgir contra o sistema de então, precisamente na altura em que o Vente do Leste eclodiu, diluindo e varrendo os sistemas semelhantes a nós, não era fácil estamos hoje em democracia e no estado de direito.
    A abertura política não aconteceu da forma como muitos pensam, mas sim por se ter percebido que o partido estava correndo riscos sérios de esfrangalhar.
    Então essa declaração de “orgulho do partido único” nos diz algo muito sério e temos que tomar as devidas notas, uma vez que até certo ponto nos puxa a pensar naquilo que já foi manifestação do actual lider desse partido que tem a ver com a restauração dos milicianos e dos tribunais populares de muito má memória da nossa história.
    A nossa história nos pode orgulhar a todos, mas sem referência aos aspectos e situações menos bons porque passamos, tomados como sendo de orgulho em que se de facto constituem orgulhos para uns, temos que ter em conta que faz a muitos sentirem como que nas suas feridas se mexeu e isso pode significar que sangra de novo.

  3. Hoje em dia, faz-se lavagem de tudo, também de regimes ditatoriais,
    Cabo Verde deve levantar-se e travar essa operação de lavagem e o populismo que Francisco Carvalho personifica.
    O pessoal do MpD tem sido pouco interventico, enquanto essa onda envenenada avança.

  4. Se deixamos de viver no partido único,passamos a viver na Democracia continuar mesmo assim a criticar o PAIGC que deu abertura política democrática,imagina se viemos a viver a autocracia,que já lá lavamos com certos partidos dá extrema direita,a crítica será o mesmo?
    Continuar Continuar,devemos é ter respeito por ética moral da história respeitar a quem hoje nos deu um país mais livre e justa !

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