O Serviço Nacional de Saúde de Cabo Verde pode e deve ser criticado — mas há uma linha clara entre crítica séria e oportunismo político. Dizer que o sistema está “em colapso” em pleno período pré-eleitoral não é análise: é instrumentalização de um setor sensível para ganho político imediato.
E é preciso dizer isto sem rodeios: usar a saúde como arma de campanha nestes termos é irresponsável.
Um sistema em colapso não funciona. Não atende. Não responde. Está paralisado.
Não é isso que acontece em Cabo Verde.
Os hospitais continuam abertos. Os centros de saúde continuam a atender. As campanhas de vacinação continuam a decorrer. Os indicadores de saúde — apesar das dificuldades — continuam superiores aos de vários países comparáveis. Isso não é colapso. É um sistema sob pressão, com falhas reais, mas operacional e estruturado.
Aliás, quando comparado com outros países africanos da CPLP, o discurso torna-se ainda mais deslocado da realidade. Em Guiné-Bissau, há ruturas frequentes e dependência crítica de ajuda externa. Em Moçambique, a escassez de médicos e infraestruturas é profunda. Em Angola, o acesso continua desigual apesar dos recursos disponíveis. Cabo Verde, com muito menos meios, apresenta mais organização, maior cobertura e melhores resultados médios.
Isso significa que está tudo bem? Não.
Mas também significa que falar em colapso é, no mínimo, uma deturpação grosseira dos factos.
Mais grave ainda: esse tipo de discurso tem consequências.
- Descredibiliza o sistema junto da população
- Desmotiva profissionais que trabalham em condições difíceis
- Cria alarme social desnecessário
E tudo isto porquê? Para capitalizar politicamente num momento eleitoral.
A crítica séria exige propostas:
- Como reduzir evacuações?
- Como fixar especialistas?
- Como melhorar o abastecimento de medicamentos?
Sem isso, o discurso não é exigência política — é apenas ruído.
No limite, este tipo de declaração revela mais sobre quem a faz do que sobre o estado real do SNS. Porque quando se exagera ao ponto de chamar “colapso” a um sistema que continua a funcionar, o objetivo deixa de ser resolver problemas — passa a ser explorar perceções.
O SNS de Cabo Verde precisa de reforço, investimento e reformas.
Mas precisa, acima de tudo, de ser tratado com seriedade.
E a verdade, por mais incómoda que seja em tempo de campanha, é esta:
⁃ não está em colapso — está a ser usado como argumento político.


