O tempo deu cabo do meu motor!

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Não sinto a idade que o meu corpo me quer dar. Sempre achei o meu corpo a parte mais atrevida de mim. Sempre dei bem com o meu espírito, que são os meus sentimentos. Não posso aceitar a idade que o meu corpo me quer atribuir. Não pode ser minha a idade que ele me quer estampar. Na verdade, sinto-me muito mais jovem que o meu corpo. O corpo é sempre mais fraco. É mais atrevido também. Corre sempre à procura de coisas, que eu não quero. Que eu não gosto. Que eu não aceito. Quer exercícios que eu detesto. Se o deixasse, ele faria exercícios de manhã, à tarde, à noite e até de madrugada. Eu não sou o meu corpo. O tempo do meu corpo, não é o meu tempo. Não quero saber do tempo dele. O tempo dele me persegue injustamente. Não sou a pessoa que ele pensa que sou! Nós não somos colegas. Sou muito diferente dele. Quero estar à distância dele. Mas, ele me persegue a cada passo. Somos dois polos opostos. Sou uma pessoa alegre, que gosta conversar com os vizinhos. Uma pessoa com boas intenções e com boas relações com o tempo. Amável. Sou feliz. Cumprimento com cortesia as pessoas. Sou uma pessoa educada e feliz. Faço as minhas leituras e vivo sem atrevimento. E sei escolher o meu lugar. Quero escolher o meu tempo. Um tempo útil e agradável. Um tempo suave. Um tempo que não anda à procura de holofotes. Eu não minto e não escondo que quero ser eterno. Não quero envelhecer e ficar com rugas. Não quero ter dores. Quero ficar no meu lugar. Não quero ficar feio e rabujento. Quero ser livre, respirar fundo e não perturbar ninguém. Quero ter paz! Não preciso contar o tempo. E admito que quero ser intemporal. E isso não é nenhum pecado.

E é por tudo isso, que o meu espírito, os meus sentimentos, detesta o meu corpo. Brigaram sempre e brigam durante o dia e às vezes durante o sono. Sinto essas brigas, sobretudo durante o sono. Brigas revoltantes. Brigas sem fronteiras. Finjo não perceber as brigas, tapo os ouvidos, para que o meu espírito não tenha que se acordar fora do tempo. O meu corpo por vezes quebra o meu horário. São brigas feias e estridentes, com pancadarias, e que, por vezes, acordam os vizinhos. Outro dia, um dos vizinhos bateu à minha porta, a pedir-me, por favor, se pudesse fazer menos barulho. E disse-me que já era demais e que todas as madrugadas esse barulho se repetia. E se repetia com a mesma intensidade. Porém, não quis ser indiscreto e dizer ao vizinho que a culpa era do meu corpo. E também não quis informar-lhe as razões das brigas. Não quis que os vizinhos soubessem de problemas estritamente familiares. Não se faz. Todavia, a vontade que eu senti no momento da reclamação do vizinho, era contar-lhe tudo sobre os abusos e atrevimentos do meu corpo. As suas agressividades. As suas impiedades. Mas, conti-me em absoluto. Os problemas familiares não podem ser transportados para fora da família. Foi essa apenas a razão da minha contenção. E reparem que é só por esse motivo, que me leva a não ir apresentar uma queixa à esquadra da Polícia. Ou mesmo ir processar o meu corpo com um processo judicial. Não quero fazer isso. E por isso, sofro calado todas as madrugadas. E creio que é por isso que o meu corpo anda a abusar de mim e dos meus vizinhos. Sofremos em silêncio! Confesso que já não aguento o meu corpo. Ele começa a dar sinais de velhice, de cansaço e começa a desfigurar-se dia após dia. Disse que o corpo é sempre mais fraco. Quem não sabe disso? Queixa-se de dores por todo o lado. Dores nas juntas, das pernas e das coxas. O corpo é fraco. É de carne e osso. É frágil e não resiste ao tempo. A idade desorienta o corpo. A parte que primeiro enfraquece no corpo são as pernas, sobretudo as juntas. Talvez, essa fraqueza vem do peso que é obrigado a suportar durante anos. As pernas ficam desfalecidas, magras e perdem a estrutura. E ficam cheia de rugas. As suas juntas começam a encolher-se dobra por dobra. É o desgaste. É o tempo a atacar. Num ponto eu fico contente, podia celebrar em festa, pois o meu corpo sempre foi atrevido. Desde que o conheci e comecei a conviver com ele, vi que era enchido demais. Falava muito e brigava sem razão. Nas festas, ele não perdia uma única música. O frenesim dele era fresco e de facto demonstrava muita energia.

Hoje, eu sinto que ele se aposentou. Está reformado. E reclama-se do montante minguado da sua pensão. Eu vejo hoje o meu corpo, não o reconheço. Como eu sinto pena dele. Ah que pena sofrida.

Reservado, triste e quase que não fala e já não briga. É o tempo!

O tempo dele. Ele só reclama do tempo. Disse-me há dias que sempre detestou do tempo. Os dias, os meses e os anos…ah como senti pena do meu corpo. Senti pena fina e aguda do meu corpo. Um carro velho, sem motor e sem rodas, sepultado num armazém abandonado!