O velho e o novo

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Um velho como eu a atrever-se a falar de coisas novas… mas vamos a isso, pois nesta matéria creio que estará em causa mais uma espécie de idade ideológica do que temporal.

Quando somos chamados a dirigir um serviço ou empreendimento públicos, poucas alternativas de atitude se colocam como desafios: gerir o quotidiano, fazer pequenas revisões em busca de melhorias pontuais ou então provocar transformações necessárias, para mudar a matriz do que se está fazendo. O que em concreto e em detalhe deve o dirigente fazer pode revelar-se no desempenho do novo cargo, mas a vontade política de mudar ou vai com ele no primeiro dia ou é rapidamente capturado pelo modelo burocrático que era suposto mudar! E não pode perder muito tempo, porque será rapidamente aculturado! E, não podendo com “eles” pela força da sua vontade, mesmo sem querer acaba por juntar-se a “eles”.

Uma coisa é certa: quase nunca houve verdadeiras reformas de dentro, mas de fora para dentro! O pensamento disruptivo só tem lugar, na esmagadora maioria dos casos, fora da caixa reformanda! Não se pode exigir ao homem da carreira o heroísmo da desconstrução do serviço ou empreendimento que ele tão bem representa! Seria quase uma espécie de auto-incriminação! É até expectável que seja opositor! E nem sequer é razoável lhe exigir entusiasmo na aderência ao processo de ruptura e construção do novo! E o verdadeiro inimigo da reforma é a insegurança que o novo acarreta e a descrença em processos e sistemas inovadores! O velho é amigo, porque companheiro antigo de percurso, o novo é o intruso que bate à porta, para despejar o companheiro! Ao caixa mais antigo do banco se perguntado há 30 anos pelo sistema ATM de pagamento ou ao gestor experiente da conta pela introdução de inter banking, open banking ou mobile banking, a resposta óbvia seria qualquer coisa à volta do enorme perigo que isso representava! Naturalmente que não se pode imputar qualquer culpa ao “conservador”, pois que é resultado do ambiente de trabalho de anos! E resiste à mudança com convicção da justeza da sua posição! E até sente-se incompreendido, com sentida preocupação pelo caos que se avizinha!

Num tempo em que as transações em papel estão a ser intensamente eliminadas no mundo todo e rapidamente substituídas por ferramentas tecnológicas, num tempo em que está cientificamente demonstrado que a assinatura no papel situa-se no mais baixo grau de segurança e certeza, há muitos ainda que acreditam que a verdade só pode ser adquirida em carne e osso! O atendimento remoto, a verificação remota e a prestação de serviços remotos provocam-lhes imensa desconfiança. O grau máximo de remoto que toleram está nos comandos dos seus televisores. É preciso ver a criatura dos pés à cabeça para se confirmar que ela existe! Só o que é feito sob o controlo dos olhos que um dia a terra há-de comer pode ser dado como verdadeiro. São os São-Tomés da Administração Publica! Desinteressam-se da rapidez e segurança que a ferramenta eletrónica oferece e concentram os seus esforços em evitar que a realidade mude de forma! Ou então, para serem mais modernos, vamos mudar as miudezas, para não mudar o essencial!

2 COMENTÁRIOS

  1. Estranho que este artigo não tenha suscitado comentários de apoio e satisfação, pela clareza e profundeza da análise. Ou será que choca tanta gente que é melhor ficarmos calados? Esta análise do Embaixador Eurico Correia Monteiro deveria ser assumida como a pedra basilar por qualquer Governo que de facto quiser reformar a nossa Administração. O resto é blá-blá. Como bem diz o Embaixador, não se pode pedir aos homens do sistema que o reformem. Isso é pior que reunir um grupo de alcoólatras e pedir-lhes conselhos para combater o alcoolismo. A este propósito vem a questão da grane reforma feita na emissão de Passaportes electrónicos pela Embaixada que ele dirige em Lisboa. Tenho algumas informações das dificuldades e quase sabotagem que envolveram este processo. Quando um semanário da praça veio caluniar a tão oportuna e brilhante iniciativa, o próprio governo, teve um papel patético e cobarde na sua explicação. Portanto, caro Embaixador, neste processo de reforma da nossa Administração Pública, não conte com todos, independentemente da filiação partidária. É uma questão de mentalidade, comodismo e interesses (materiais e imateriais) instalados.

  2. Estranho que este artigo não tenha suscitado comentários de apoio e satisfação, pela clareza e profundeza da análise. Ou será que choca tanta gente que é melhor ficarmos calados? Esta análise do Embaixador Eurico Correia Monteiro deveria ser assumida como a pedra basilar por qualquer Governo que de facto quiser reformar a nossa Administração. O resto é blá-blá. Como bem diz o Embaixador, não se pode pedir aos homens do sistema que o reformem. Isso é pior que reunir um grupo de alcoólatras e pedir-lhes conselhos para combater o alcoolismo. A este propósito vem a questão da grande reforma feita na emissão de Passaportes electrónicos pela Embaixada que ele dirige em Lisboa. Tenho algumas informações das dificuldades e quase sabotagem que envolveram este processo. Quando um semanário da praça veio caluniar a tão oportuna e brilhante iniciativa, o próprio governo, teve um papel patético e cobarde na sua explicação. Portanto, caro Embaixador, neste processo de reforma da nossa Administração Pública, não conte com todos, independentemente da filiação partidária. É uma questão de mentalidade, comodismo e interesses (materiais e imateriais) instalados.

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