OE 2027: entre o mérito das medidas e o desafio da sustentabilidade

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O OE 2027 apresentado pelo Governo tem uma característica evidente: faz escolhas e concentra recursos em medidas com impacto direto na vida das pessoas.

E é importante reconhecer isso.

A gratuitidade na saúde, a gratuitidade do ensino superior, a redução das tarifas dos transportes interilhas e a implementação do PCFR respondem a problemas concretos de Cabo Verde.

São medidas que podem melhorar o acesso à saúde, reduzir barreiras à formação superior, aliviar o custo da mobilidade entre ilhas e corrigir situações pendentes na Administração Pública.

Há, portanto, mérito social nas opções apresentadas.

Mas reconhecer o mérito das medidas não significa deixar de fazer as perguntas difíceis.

  1. Transportes: uma boa política, mas com uma conta permanente

Reduzir o custo das viagens interilhas pode representar um avanço importante para a mobilidade e para o combate à dupla insularidade.

Mas será necessário saber quanto o Estado terá de pagar para compensar as empresas, como será calculada essa compensação e se haverá capacidade de oferta para responder ao aumento da procura.

Uma tarifa mais baixa só cumpre plenamente o seu objetivo se houver barcos e aviões suficientes, regularidade e sustentabilidade financeira.

  1. Saúde gratuita: o desafio é garantir capacidade

A gratuitidade pode retirar uma barreira financeira importante ao acesso aos cuidados de saúde.

Mas a política terá de vir acompanhada de investimento na oferta.

Mais procura significa necessidade de mais médicos, especialistas, medicamentos, exames, equipamentos e capacidade hospitalar.

Caso contrário, corre-se o risco de substituir uma barreira financeira por uma barreira de acesso.

Gratuidade deve significar acesso efetivo, e não apenas ausência de pagamento.

  1. Ensino superior: investir nas pessoas exige financiar as instituições

A gratuitidade do ensino superior pode ser uma aposta importante na qualificação dos jovens cabo-verdianos.

Mas também aqui é fundamental conhecer o modelo de financiamento.

Quanto será necessário por estudante? Como serão financiadas as instituições públicas? Como será tratada a participação das instituições privadas?

 

A política será tanto mais sólida quanto mais transparente for a resposta a estas perguntas.

  1. PCFR: uma correção necessária, mas com impacto orçamental

A implementação do PCFR pode contribuir para maior previsibilidade e justiça nas carreiras da Administração Pública.

É uma reforma importante para os trabalhadores.

Mas também representa um compromisso financeiro que se prolongará no tempo.

Por isso, será essencial conhecer o impacto sobre a massa salarial, o número de funcionários abrangidos e os custos associados às progressões e eventuais retroativos.

Valorizar os trabalhadores e preservar a sustentabilidade das contas públicas não são objetivos incompatíveis, mas exigem planeamento rigoroso.

  1. A questão central não é ser contra ou a favor

É possível reconhecer que estas medidas respondem a necessidades reais e, simultaneamente, perguntar se estão devidamente financiadas.

É possível defender saúde gratuita e perguntar como serão garantidos os medicamentos.

É possível defender ensino superior gratuito e perguntar quanto custará ao Estado.

É possível apoiar tarifas interilhas mais baixas e questionar o modelo de compensação às transportadoras.

É possível defender o PCFR e exigir transparência sobre o impacto na massa salarial.

Uma coisa não invalida a outra.

O debate sobre o OE 2027 deveria, por isso, ultrapassar a disputa entre “Governo bom” e “Governo mau”.

A questão verdadeiramente importante é:

as medidas são financeiramente sustentáveis, operacionalmente executáveis e capazes de produzir os resultados anunciados?

Se a resposta for sim, serão investimentos importantes para Cabo Verde.

Se houver insuficiências, é melhor identificá-las agora do que descobrir os seus custos daqui a dois ou três anos.

No fundo, o desafio do OE 2027 é encontrar o equilíbrio entre justiça social, crescimento económico e responsabilidade financeira.

Porque Cabo Verde precisa de políticas que melhorem a vida das pessoas hoje, mas também precisa de capacidade para continuar a financiá-las amanhã.

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