Há dores que as palavras não conseguem explicar.
Em 8 de janeiro de 2015, vivi de perto a tragédia marítima do navio Vicente, ao largo do Porto de Vale dos Cavaleiros. Entre as vítimas encontravam-se antigos alunos meus. Naquela noite interminável, acompanhei quase tudo, impotente, no meio da escuridão, da ausência de meios e da angústia das famílias que esperavam por notícias dos seus filhos, parentes e amigos.
Hoje, estando em Boston, longe da minha terra, acompanho novamente, com o coração apertado e em lágrimas, a tragédia ocorrida na estrada entre Piorno e Campanas de Cima. Um autocarro que transportava crianças e jovens, regressando de um passeio, precipitou-se numa ravina, semeando morte, sofrimento e desolação.
As informações ainda estão a ser atualizadas, mas já há pelo menos 24 vidas perdidas. São filhos da nossa terra, muitos ainda crianças e jovens, que partiram cedo demais. Entre eles estarão familiares e pessoas que todos conhecemos e estimamos. Partiu também o meu amigo Djidjino ( na foto ) e tio do meu irmão Luís ! À sua família e às famílias de todas as vítimas apresento os meus mais profundos sentimentos.
A tragédia atinge profundamente Velho Manuel, terra onde nasceu a minha mãe e à qual estou ligado pelas raízes, pelo sangue, pela memória e pelo coração. A dor daquela comunidade é também a minha dor.
De Boston, envio toda a minha solidariedade à gente de Velho Manuel, Campanas, Piorno e das localidades vizinhas; a toda a ilha do Fogo; a Cabo Verde inteiro; e a todos os cabo-verdianos espalhados pela diáspora. Hoje, onde quer que estejamos, somos uma só família unida pelo sofrimento e pelo amor à nossa terra.
Nesta hora, não existem palavras capazes de consolar tamanha perda. Que Deus acolha os que partiram, dê força às famílias enlutadas e ajude os feridos a recuperarem.
Mas o nosso luto deve também transformar-se num apelo firme: as estradas perigosas da ilha do Fogo precisam urgentemente de barreiras e cortinas de proteção, sinalização adequada e condições efetivas de segurança. Não podemos continuar a esperar pela próxima tragédia para exigir aquilo que pode salvar vidas.
Não é o momento de procurar culpados nem de fazer aproveitamento político. É, porém, o momento de unirmos a nossa voz e exigirmos responsabilidade, prevenção e proteção. Cada vida perdida obriga-nos a agir.
Força, famílias!
Força, Velho Manuel, Campanas, Piorno e toda a zona Norte!
Força, Djarfogo!
Força, Cabo Verde, na terra e na diáspora!
Choremos os nossos mortos, amparemos os feridos e levantemos bem alto a nossa voz:
PROTEÇÃO NAS NOSSAS ESTRADAS!
NUNCA MAIS UMA TRAGÉDIA QUE PODERIA SER EVITADA!
Que as almas dos que partiram descansem em paz.



