Depois de 50 anos, Cabo Verde não poderia receber melhor prenda: o país sobe de patamar de rendimento e será oficialmente classificado como país de rendimento médio alto pelo Banco Mundial.
Ninguém duvida do extraordinário percurso feito nesse meio século como país independente. Nesse período, conseguimos multiplicar a nossa renda per capita em cerca de 23 vezes, saindo de uma renda per capita de aproximadamente 200 a 300 dólares em 1975 para mais 5.000 dólares em 2025, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Isso coloca Cabo Verde entre os 10 países africanos com maior PIB per capita atualmente.
Mas o mérito dessa façanha é exclusivamente nosso. Um país com parcos recursos no início da sua caminhada, conseguimos, ao longo desses anos, construir um ambiente económico que favoreça a alocação eficiente de recursos. Promovemos a estabilidade política, respeitando o direito à propriedade privada — apesar dos retrocessos temporários representados pelo regime totalitário implementado logo após o grande feito que foi a luta pela descolonização. Contudo, o ponto de viragem ocorreu em 1990, quando a repressão económica deu lugar à livre iniciativa privada com reformas que incentivaram a inovação e o empreendedorismo em que o povo das ilhas pôde buscar oportunidades para uma vida melhor e mais prosperidade.
E assim aconteceu. Hoje, fruto dessa árdua luta, recebemos a boa notícia: o Banco Mundial acaba de anunciar a classificação de rendimento dos países para o ano fiscal de 2026, e Cabo Verde será oficialmente classificado como país de rendimento médio alto.
A estabilidade política tem sido crucial para o crescimento económico em Cabo Verde, impulsionado sobretudo pelo setor do turismo, o que reflete a confiança no nosso país. Em Cabo Verde, o Governo arrecada entre 20% a 30% do PIB sob a forma de impostos e gasta na mesma faixa. Nos próximos tempos, precisamos de ter um olhar crítico sobre a tributação e o financiamento do défice público, variáveis que afetam diretamente a atividade económica. O foco deve ser promover e elevar a taxa de investimentos, criar incentivos para diversificarmos a nossa economia e aumentar o nível das exportações — condições essenciais para um crescimento sustentado, rumo ao desenvolvimento e ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Cabo Verde rumo ao futuro: este país tem todas as condições para prosperar. Os cabo-verdianos devem rejeitar propostas que ponham em risco o crescimento sustentado, principalmente aquelas que exijam aumentos significativos de impostos combinados com um perfil de gastos anti desenvolvimentistas. Os próximos tempos serão cruciais: em 2026, haverá eleições legislativas, e não podemos comprometer o país com propostas mal fundamentadas ou pouco elaboradas. O cabo-verdiano é dono do seu destino e tem sabido responder com sabedoria nos momentos decisivos para o nosso futuro coletivo.


