Da paródia: Na terra de “tudo pagu”, quem tem olhos não é burro. Louvor ao nosso messias, que é nacional

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Num país bué — mas bué mesmo — mais bué longe da nossa pobreza e da falta de chuva, há quem prometa fazer jorrar mel das pedras, numa quase imitação de Nelson Freitas: “Bô tem mel, pa manera ki bô tene-m, bô trás…bu tem ki tem mel.”

“Di kel jetu”, o gajo que se diz Messias promete o famoso “Tudu Pagu”, como se fosse distribuição de pernas e bifanas pelos subúrbios da Praia. Trata-se de um milagre moderno, cuidadosamente embalado para estimular a dopamina dos eleitores — e excitar os apóstolos digitais, sempre na caça dos likes. A bênção da “Gratuitidade para Tudo e para Todos” vem mais cebolada do que caldeirada de cavala de Sintanton. Um milagre gourmetizado, promovido por quem agora precisa prometer mais do que simples pernas e bifanas: precisa prometer uma gratuidade divina — de um Jesus em versão cosplay, adaptado às exigências das redes sociais.

Logo se vê que este gajo, o Messias Nacional, é um sabichão. Porque sabe, perfeitamente, que pela ciência — seja ela da boa gestão, da aritmética básica ou da simples decência —, a sua promessa de “Tudu Pagu” é uma anedota. Mas, neste país, anedota boa vira plano de governo. E, mesmo sendo este país pobre e com pouca produção, há muitos que acreditam na milagrosa promessa de que tudo será grátis — e que nem os impostos serão cobrados.

Pois bem! Desengane-se quem achar que a promessa da gratuitidade nasce da ingenuidade do nosso Messias Nacional. Não: ela nasce da esperteza. É um aceno bem ensaiado ao desejo coletivo — onde migalhas vão sendo distribuídas, só para alimentar a expectativa de que haverá mais. Tudo bem alinhado à nossa filosofia de vida “Di ki dipôs di sábi, morti é ka nada”.

O Txiku Messias pode ter defeitos — mas burro, ele não é. Porque estudou, porque é sociólogo e porque conhece bem esta nova sociedade cabo-verdiana, que quer “Tudu Pagu”. E ele promete. Porque prometer também é grátis, e, morrer depois de “sábi” é só um detalhe. Se o povo quer tudo pago — transporte, pão, pernas e bifanas — que assim seja!

Rezo apenas para que Deus não deixe faltar… pernas, nem bifanas. O último que sair, que feche a porta, apague a luz — e deixe trocado para pagar a dívida.