A história de Cabo Verde, como a de qualquer nação, deve ser lida com espírito crítico e honestidade intelectual. Uma das questões mais sensíveis continua a ser a justificação do partido único instaurado após a independência em 1975. Alguns insistem que se tratou de uma inevitabilidade, imposta pelas “condições do momento” e pelo atraso político do povo cabo-verdiano. Mas a verdade é bem diferente: o partido único foi uma opção política — e não uma fatalidade histórica.
A herança do Claridoso e a preparação para a democracia
Muito antes da independência, o Movimento Claridoso já havia despertado em Cabo Verde uma consciência cultural e política, semeando o ideal de liberdade e de autodeterminação. Antes e depois desse movimento literário, os cabo-verdianos demonstraram possuir uma maturidade própria para reivindicar autonomia, identidade e pluralismo. Ou seja, a democracia e a liberdade estavam desde cedo na veia do nosso povo, e não eram uma realidade estranha à sua formação.
A contradição do Tarrafal
O episódio mais marcante e contraditório da época pós-independência foi o uso da cadeia do Tarrafal — outrora símbolo da repressão colonial portuguesa — para encarcerar cabo-verdianos que se opunham ao PAIGC e à sua visão da unidade Guiné–Cabo Verde. O mesmo espaço que acolhera os heróis da luta contra o fascismo foi reciclado para silenciar opositores internos, muitos deles defensores do multipartidarismo. Isto demonstra que o partido único não foi uma necessidade, mas sim uma escolha consciente de restringir liberdades.
A escolha geopolítica
É verdade que o contexto da Guerra Fria condicionava opções. Cabo Verde recebeu apoio da ex-URSS e de outros países do bloco socialista, tentando equilibrar-se com o movimento dos Não Alinhados. Mas havia alternativas. Outros países africanos iniciaram logo com sistemas pluralistas. Cabo Verde podia ter feito o mesmo. O monopólio partidário foi, portanto, uma via deliberada, não uma inevitabilidade.
A prova de maturidade democrática
A melhor demonstração de que os cabo-verdianos sempre estiveram preparados para a democracia aconteceu quinze anos após a independência. Em 1991, de forma pacífica e inequívoca, o povo derrubou o regime de partido único e deu ao MpD uma maioria qualificada para mudar o regime político, a bandeira, o hino e aprovar uma nova Constituição. Esse momento histórico provou sem equívocos que a democracia é consubstancial à identidade cabo-verdiana e que, apesar da longa noite colonial, a liberdade sempre esteve presente no seu ADN coletivo.
O erro do presente
É por isso que se torna ainda mais preocupante ouvir, no presente, o líder da oposição Francisco Carvalho, do PAICV, falar com um “entendimento de aço e sólido” sobre o partido único e até defender que milícias populares e tribunais de zona — instrumentos de repressão e de arbitrariedade — fizeram falta ao país. Trazer tais ideias de volta à ribalta é um erro profundo e perigoso. Não só desrespeita a memória dos que sofreram sob esse regime, como ignora a escolha clara que o povo cabo-verdiano fez em 1991: dizer “nunca mais” ao partido único.
Conclusão
Reconheço que os governos de então se preocuparam com a sobrevivência e a construção de um Estado recém-nascido. Mas não podemos branquear os erros do passado: o partido único representou a restrição de liberdades fundamentais, a perseguição de opositores e a ausência de pluralismo político.
Cabo Verde ganhou verdadeiro prestígio internacional apenas com a democracia pluralista instaurada em 1991. É nessa democracia que devemos investir e que devemos preservar — porque ela não foi uma dádiva tardia, mas sim a realização de uma vocação histórica que já se anunciava desde o tempo do Claridoso.


