Passam 44 anos da repressão do 31 de agosto em Santo Antão. A memória não se pode apagar

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Passam hoje 44 anos desde os trágicos acontecimentos de 31 de agosto de 1981 em Santo Antão, uma data que permanece marcada na memória coletiva de Cabo Verde como um símbolo de repressão e arbitrariedade. Ignorar a data, seria negar uma parte dolorosa, mas crucial, da nossa história recente enquanto povo.

Naquele dia, no contexto de uma tentativa de implementação de uma reforma agrária imposta pelo regime de partido único, várias forças do então regime, incluindo as milícias populares, envolveram-se em ações que resultaram em choques com agricultores locais, detenções arbitrárias, invasões de propriedades e violações de direitos fundamentais. Famílias foram desamparadas, mulheres tiveram sua privacidade violada e vidas foram profundamente afetadas por uma repressão que procurava calar o descontentamento e impor obediência à força. Era o regime de então no seu melhor contra o seu povo.

Este episódio não foi um ato isolado. O contexto da época era o de um regime autoritário, instalado após a independência em 5 de julho de 1975, que, embora sustentado por ideais de libertação, rapidamente adotou práticas repressivas contra qualquer forma de dissidência. O 31 de agosto foi um reflexo claro da intolerância ao pluralismo e ao livre pensamento, mesmo dentro do seio da população trabalhadora, como era o caso dos incansáveis agricultores de Santo Antão.

Hoje, quando se completam 44 anos desse episódio sombrio, é imperativo lembrar que os acontecimentos não foram abstrações nem fruto de rumores. Houve vítimas reais, com nomes, rostos e histórias. E houve também responsáveis, igualmente com nomes e cargos, que devem ser mencionados não por revanchismo, mas por justiça histórica e pedagógica sobretudo.

A democracia cabo-verdiana, construída com sacrifício e maturidade de muitos homens e mulheres, não pode correr o risco de romantizar o autoritarismo ou admitir, sequer por discurso, a reabilitação de práticas como as milícias populares, que foram instrumentos de intimidação e violência. É inadmissível, em pleno século XXI, assistir a qualquer tentativa de resgatar ou relativizar esse passado repressivo.

Ainda existem testemunhas vivas do 31 de agosto de 1981. Cabo Verde deve-lhes o respeito de preservar e divulgar suas memórias.

Que esse tempo não volte nunca mais. Nunca mesmo. Que saibamos honrar todos aqueles que sofreram por ousar resistir, por defender suas propriedades e sua dignidade contra os abusos cometidos em nome de uma ideologia.

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