Nenhum projeto político de liderança partidária deve ser um fim em si mesmo. Não se trata, simplesmente, de ganhar o partido. A ambição deve estar colocada mais além: deve ser a de ganhar o país.
Esta premissa assume ainda maior importância quando está em causa um partido como o MpD, com inegável relevância no sistema político cabo-verdiano, integrante do arco do poder e que já governou Cabo Verde durante dois ciclos políticos de dez anos cada.
É precisamente por isso que as eleições internas do próximo dia 6 de setembro devem constituir um momento de profunda reflexão para todos os militantes. Mais do que escolher uma liderança, está em causa escolher o caminho que poderá conduzir o MpD de volta ao poder.
A pergunta essencial deve ser: qual das lideranças e qual dos projetos estão em melhores condições para reconstruir a confiança dos militantes e, sobretudo, conquistar a confiança dos cabo-verdianos?
Na minha perspetiva, há pelo menos duas questões fundamentais que cada militante deve colocar:
1. Qual das lideranças apresenta o melhor perfil técnico, político e humano? Qual é a mais congregadora, reformista, visionária e empática? Qual consegue melhor aproximar o MpD dos seus militantes e da sociedade e, ao mesmo tempo, preparar o partido para vencer as eleições autárquicas de 2028 e as legislativas de 2031?
2. Qual dos projetos é verdadeiramente inovador, credível e ambicioso, mas simultaneamente realista? Qual apresenta uma estratégia capaz de devolver o MpD ao poder no mais curto espaço de tempo, aprendendo com os erros do passado e respondendo às novas exigências da sociedade cabo-verdiana?
Estas questões conduzem-nos inevitavelmente a outras que não podemos deixar de enfrentar.
Queremos continuidade, isto é, mais do mesmo, com os mesmos protagonistas, os mesmos pensamentos e as mesmas atitudes?
Queremos continuar a aplicar a mesma receita que contribuiu para afastar cerca de 40 mil eleitores e ditou a nossa derrota?
Queremos uma liderança que fala de mudança, mas que não consegue apresentar verdadeiras novidades?
O MpD precisa de ser um partido inclusivo. Todos os seus ativos devem ser aproveitados, particularmente aqueles que acumularam experiência, conhecimento e competência em funções de elevada responsabilidade no país. A experiência não deve ser desperdiçada, porque um partido com ambição de governar precisa de memória, conhecimento e capacidade.
Mas inclusão não significa necessariamente que fique tudo igual e que se mude apenas o empacotamento.
Temos de estar cientes de que existe desgaste político, de que a taxa de rejeição tende a aumentar com os anos e de que existe uma perceção pública construída ao longo do tempo, que não pode ser escamoteada nem ignorada.
Sim, a política também é feita de perceções.
Como podem os militantes acreditar plenamente num projeto que se apresenta rodeado e liderado por aqueles que, tendo tido responsabilidades e oportunidades, não conseguiram promover a transformação necessária para um partido mais próximo dos militantes, mais aberto, mais participativo e mais unido, e que agora se apresentam como protagonistas dessa mesma mudança?
Do mesmo modo, como convencer o povo cabo-verdiano de que determinado projeto representa a renovação e a devolução do MpD ao Governo quando surge, sobretudo, associado a protagonistas que foram recentemente avaliados e não passaram no crivo das urnas?
Não se trata de negar o valor das pessoas, nem de apagar o seu percurso. Nem se pretende generalizar porque, como sabemos, cada caso é um caso. Trata-se somente de reconhecer uma realidade política: há momentos em que a renovação precisa também de novos rostos, novas ideias, novas energias e uma nova relação com a sociedade.
É neste contexto que encontro em Paulo Veiga uma verdadeira lufada de ar fresco para o MpD e, sobretudo, uma oportunidade de renovação para o país.
Vejo nele uma liderança capaz de combinar experiência e renovação, conhecimento e energia, ambição e realismo. Uma liderança que pode ajudar o MpD a reencontrar-se consigo próprio, recuperar a confiança dos seus militantes e, sobretudo, reconstruir a ponte com os milhares de cabo-verdianos que deixaram de votar no partido.
A questão que temos pela frente não é, portanto, uma mera cosmética, nem simplesmente saber quem vai ganhar o MpD no dia 6 de setembro.
A verdadeira questão é: quem está em melhores condições para fazer o MpD voltar a ganhar Cabo Verde?
É essa a pergunta que cada militante deve responder.
Porque ganhar o partido é apenas um meio.
O objetivo final deve ser ganhar novamente a confiança do povo e devolver o MpD ao poder para servir Cabo Verde.

