Num momento em que as democracias enfrentam pressões crescentes por todo o mundo, torna-se necessário analisar com lucidez as causas profundas desse fenómeno. Crises nos sistemas de saúde, dificuldades no acesso à habitação, morosidade da justiça e o agravamento das desigualdades socioeconómicas alimentam um clima de frustração e desconfiança. É neste terreno fértil que emergem projetos populistas — sejam eles de esquerda ou de direita — que prometem soluções simples para problemas complexos.
A nível internacional, este cenário tem permitido a ascensão de discursos radicais e de modelos de governação que desafiam os princípios do Estado de Direito. A China é frequentemente citada como exemplo de um sistema que combina autoritarismo político com dinamismo económico, um modelo que pode parecer eficiente, mas que representa uma ameaça clara às liberdades fundamentais. Ao mesmo tempo, democracias consolidadas, do Ocidente à América Latina, enfrentam ondas populistas que exploram medos sociais, insegurança económica e descontentamento acumulado.
Cabo Verde: uma democracia sólida, mas não imune
É neste contexto global que Cabo Verde deve situar a sua reflexão. O país consolidou, ao longo das últimas décadas, uma democracia respeitada internacionalmente. No entanto, tal como acontece noutros Estados democráticos, não está imune aos riscos da erosão interna.
O maior partido da oposição tem adotado, nos últimos tempos, um discurso que combina vitimização política, pessimismo estrutural e um revisionismo histórico preocupante. Esta narrativa, assente no “coitadismo” e na ideia de que o país se encontra num estado permanente de degradação, contribui para o descrédito das instituições e para a desconfiança generalizada.
Mais grave ainda é o facto de alguns dos seus dirigentes ensaiarem uma reabilitação subtil — por vezes explícita — das práticas e estruturas do antigo regime de partido único. Expressões como a nostalgia de tribunais de zona, milícias populares ou “entendimentos sólidos” com raízes em 1975 revelam uma visão que contrasta com os valores essenciais de uma democracia pluralista.
O perigo da nostalgia autoritária
A história mostra que os retrocessos democráticos não surgem de um dia para o outro. Começam sempre com discursos que sugerem que a democracia é “ineficiente”, que o povo “não escolhe bem”, que “falta autoridade”, e que é preciso regressar a “soluções fortes”.
Este é o primeiro passo para justificar a concentração de poderes, o enfraquecimento das instituições e a eliminação progressiva das liberdades individuais.
Cabo Verde não está num ponto crítico — mas os sinais devem merecer atenção. Uma democracia saudável depende tanto da eficácia das políticas públicas como da responsabilidade dos seus protagonistas políticos. Quando a oposição prefere a estratégia da dramatização permanente à apresentação de alternativas exequíveis, contribui para o desgaste das instituições e abre espaço a aventuras populistas com contornos autoritários.
A resposta necessária
Perante este cenário, é fundamental reforçar os pilares democráticos:
- melhorar a qualidade dos serviços públicos,
- acelerar a justiça,
- combater desigualdades,
- garantir habitação digna,
- consolidar políticas sociais eficazes,
- e promover um debate político sério, responsável e ancorado na verdade factual.
Mas também é crucial que a cidadania se mantenha vigilante e informada. A defesa da democracia não compete apenas aos governantes; compete igualmente aos cidadãos que rejeitam soluções fáceis, discursos inflamados e nostalgias perigosas.
Conclusão
Cabo Verde tem todas as condições para continuar a ser uma referência democrática no continente africano. Mas para isso, não pode tolerar retrocessos. O país deve resistir à tentação do populismo e à sedução de modelos autoritários, velhos ou novos.
A democracia não é perfeita, mas continua a ser o único sistema capaz de corrigir os seus erros — e o único que garante liberdade, pluralismo e dignidade humana.
É essa conquista que importa preservar, com clareza, firmeza e responsabilidade


