Pós-verdade

Imaginem um mundo onde o conhecimento é elitizado e os factos têm menos importância que uma opinião, imaginem um mundo onde um post no Twitter ou Facebook tem mais relevância que uma tese de mestrado ou doutoramento na biblioteca de uma universidade. Sim! Este mundo existe e estamos nele. A era da pós-verdade. A era onde a mentira, ilusão, a verdade e a realidade são meras perspetivas

Considerado a palavra do ano em 2016, Pós-verdade, segundo a Oxford Dictionaries, é quando “conceitos clássicos acerca do domínio dos factos, da verdade, da informação e da esfera pública são ressignificados”. A sociedade dá novos significados aos conceitos e factos mudando-os consoante a necessidade atual.

Hoje, o ser humano é condicionado de várias formas. Na era da informação, que antecede a era da experiência, o homo sapiens vem sendo fustigado com turbilhões de informações que nem sempre correspondem à verdade e/ou realidade.

Esse condicionamento é feito por vários fatores. Segundo o Solomon Asch Conformity Experiment, o ser humano tende a aceitar e acreditar em uma resposta ou informação errada dada em primeiro lugar do que confirmar os factos.

De uma outra forma, o ser humano é condicionado desde o início da sua existência a engajar em histórias, vivem suas vidas em histórias, memorizam e engajam com coisas novas através de estórias (Newman, 2016). Por estarem condicionados a histórias e narrativas, o ser humano, tendencialmente, aceita o que faz sentido num determinado momento.

Essa condição, estar condicionado a histórias e narrativas, serve de base para que a era Pós-verdade seja uma narrativa que constitui a sua própria realidade. Assim, acredita-se que a “verdade” nesta era é o que melhor funciona num momento particular e uma afirmação deve ser verdade só e somente porque as pessoas querem acreditar nela.

Durante a história da humanidade, aconteceram vários casos de ressignificação da história para criar narrativas e influenciar a opinião pública. Primeiramente a história do livro Gênesis, Adão e Eva, onde uma cobra dá uma maçã a Eva e de seguida toda raça humana é condenada a viver fora do paraíso. É uma história que não existem provas científicas, mas é comummente aceite pelos cristãos.

Da mesma forma, em 1931, o exército japonês inventou uma invasão para justificar ataques à China. Usando o seu próprio exército, o Japão atacou a si mesmo criando um “facto” para suportar a invasão à China. Uma tentativa de criar factos para influenciar acontecimentos em detrimento aos ganhos específicos.

Na política, a era pós-verdade tem causado os seus efeitos também. Em 2016, na cidade de Veles, Macedónia, um grupo de jovens começou a postar fake news relativas a eleições presidenciais americanas. Consequentemente, esses posts influenciaram a perceção relativa a um certo candidato.

Em Cabo Verde, um país que já é global e segue as tendências, sente-se as mazelas da Pós-verdade. Já temos políticos e partidos tentando fazer a recriação da história política recente. Estes feitos constituem uma das maiores ameaças à liberdade de pensamento e ameaça a capacidade decisória do povo, porque, direta e indiretamente, tem consequências na forma como vivemos, percebemos a sociedade e por último a forma como agimos.