Na III Sessão Ordinária da Assembleia Municipal da Praia, o Presidente da Câmara, Francisco Carvalho, também Presidente do PAICV e candidato assumido a Primeiro-Ministro, proferiu declarações que, em qualquer democracia madura, seriam consideradas alarmantes.
Falar em resistir à presença policial com “disparos, pauladas ou bazucas” ultrapassa todos os limites da razoabilidade política. Não se trata apenas de uma frase infeliz: trata-se de uma mensagem perigosa, com ecos de insurreição, que mina a confiança dos cidadãos nas instituições e radicaliza um debate que deveria ser feito com serenidade e responsabilidade.
Um presidente de Câmara, sobretudo da capital do país, deve ser guardião do espírito democrático. Deve falar com prudência, dar o exemplo de cooperação institucional e ser o primeiro a defender as regras do Estado de Direito. Quando, ao invés, se adota um discurso belicista e incendiário, abre-se caminho a divisões perigosas e a uma cultura de confronto que Cabo Verde já superou há décadas.
A pergunta impõe-se: onde vamos parar se este tipo de retórica chegar à chefia do Governo?
O risco não é apenas conjuntural; é estrutural. É a possibilidade de ver o PAICV, partido histórico que teve papel central na luta pela independência e na democratização, transformado numa máquina de confronto, dominada por uma ala autoritária que ameaça regressar à lógica de partido único.
Cabo Verde construiu, com sacrifício e resiliência, uma imagem de país democrático, respeitado no mundo pela estabilidade institucional. Não podemos permitir retrocessos. Cabe a todos — cidadãos na terra e na diáspora — resistir à tentação dos extremismos, defender o pluralismo e exigir líderes que falem de futuro, não de confrontos armados.
A democracia cabo-verdiana não se protege com bazucas, mas com diálogo, transparência e respeito pelas instituições. Esse é o verdadeiro caminho.


