Quando os Escândalos Não Bastam: o Caso Sócrates e o Aviso a Cabo Verde

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Lendo o livro “José Sócrates — Ascensão”, do jornalista João Miguel Tavares, emerge uma reflexão oportuna sobre poder, escândalos e responsabilidade política — lição útil também para Cabo Verde.

Lendo o livro “José Sócrates — Ascensão”, do jornalista João Miguel Tavares, compreende-se algo essencial sobre o poder: muitas vezes, os escândalos não derrubam políticos — o que os derruba é a perda de influência e o colapso do sistema que os sustenta.

Tavares escreve que “não foram os escândalos que o derrubaram. Foi a crise económica e a vinda da troika (…). Não foi a acumulação de casos que o destruiu politicamente, foi a diminuição da sua influência.”

Em Portugal, Sócrates resistiu durante anos, mesmo cercado de suspeitas e processos. Só caiu quando o país chegou ao limite da bancarrota e a sua narrativa deixou de convencer. Não foi a moral pública que o travou, foi a realidade.

Este exemplo deve servir de reflexão para Cabo Verde, sobretudo para quem observa o caso de Francisco Carvalho, presidente da Câmara da Praia. A sua gestão tem sido marcada por escândalos, irregularidades, conflitos institucionais e um discurso perigoso — que por vezes parece querer ressuscitar fantasmas do partido único, das milícias e dos “tribunais de zona”. E, no entanto, continua politicamente ativo, como se nada o atingisse.

É aqui que o paralelo com Sócrates se torna inquietante: os escândalos, por si só, não travam líderes carismáticos. Só o fazem quando o sistema deixa de os proteger e quando o povo decide abrir os olhos.

Por isso, é preciso estar atento. Porque, em democracia, não é o barulho dos escândalos que corrige o rumo — é a lucidez dos cidadãos. E, como diz a velha máxima, “o povo é quem mais ordena”.

Mas é preciso lembrar: o povo só ordena bem quando está bem informado e livre da manipulação. Em Cabo Verde, é tempo de escolher entre a ilusão e a lucidez.

3 COMENTÁRIOS

  1. Um outra questão se põe: como é que a justiça foi tão determinada e corajosa no caso Amadeu, e está sendo tão reticente e lenta no caso de Francisco? Como é que nada mais se sabe do caso “vencimento Primeira Dama”?

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