Que Deus ponha a sua misicordiosa mão… porque as mãos dos homens são curtas e insuficientes

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Certas vezes, sozinho, ponho-me a meditar sobre as nossas fraquezas. As fraquezas dos caboverdeanos. Procuro recortar as fraquezas materiais e as fraquezas espirituais. Tento pesá-las, mas a missão é quase impossível.

Por vezes, penso que podem ter igual peso, mas outras vezes fico em dúvida.

Entendi que cada caboverdeano tem em média sobre o ombro dez problemas, que precisam ser resolvidos. Uns são pesados, outros são mediamente pesados e outros nem tanto assim.

Todavia, a questão não é tanto os problemas, mas o que agrava esses problemas é a preocupação e a fadiga imprimidas pelos caboverdeanos para os tentar resolver. Mas também é na procura de soluções, que o caboverdeano se tornou descarado! Nenhum crioulo-verdiano quer resolver o seu problema amanhã ou depois de amanhã. Meteu na cabeça que terá que resolver os problemas hoje. Na procura desenfreada de soluções não se importam de bater em todas as portas! Esperam que algumas das portas hão-de se abrir. Bate numa porta e se ela não se abrir, vai batendo nas portas seguintes.

O problema é que na maior parte dos casos todos estão a bater nas mesmas portas e ninguém se importa com isso. Como que dissessem: “esse não é o meu problema”! Assim, assiste-se tranquilamente a um pesado cruzamento de pedidos e batimentos nas portas que parecem estar disponíveis. Mesmo que nenhuma porta não queira abrir, a insistência é muito superior do que as frustrações dos resultados. As frustrações de hoje são motivações para a insistência de amanhã. O que não se perde, nem por brincadeira, é a fé de que uma porta (qual não se sabe) há-de abrir, enquanto que o exército de pedidos se aumenta de volume.

A natureza dos problemas é que é uma outra confusão e uma dor de cabeça, e se vai piorando quando se impõe a inglória tarefa de os relacionar ou quantificar. Aqui é melhor fazer-se uma volta completa e depois desistir-se da volta. A quantidade dos problemas é infinita e ninguém os consegue quantificar. Mas, a diversidade é muito menor. Tentemos enunciar apenas alguns exemplos. Começa-se desde da procura de uma licença de táxi, conseguir uma bolsa para a filha, falar com o médico amigo que faz parte da Junta médica para evacuação, um pedido ao ministro para uma vaga, uma promoção, um toque ao Cônsul para se conseguir um visto, dar um toque ao presidente da Câmara para se conseguir um lote de terreno, um desconto qualquer de um comerciante amigo, o filho que precisa de um toque para conseguir um trabalho, um outro que pretende um lugar no Conselho de Administração da Emprofac, da Enapor, da ASA ou do IFH (boas empresas), aquele que trás uma receita médica e diz que precisa de dinheiro para comprar os remédios, o outro que não encontrou o lugar para viajar e pede apoio para conseguir um bilhete, ou aquela que viaja e tem quatro maletas e quer ajuda para pagar menos, etc, etc, etc, o rosário das necessidades e dos pedidos podia continuar caso este artigo não tivesse que ter um fim.

De qualquer forma todos conhecem a extensão e o prolongamento dos problemas. E como já se sabe a seguir vêm as raivas e as zangas.

A parte descrita acima engloba os pedidos com boa fé e de pessoas de coração aberto.

Do outro lado, na outra esquina da marginal, encontramos a longa e interminável fila dos charlatães, dos truculentos, dos oportunistas de serviço. Ah meu Deus! Nesse campo relvado, a plateia da luta é muito mais dura e sem regras. É neste relvado cinzento que os expedientes, as truculências e as lábias, as fraquezas enfrentam uma competição desleal e altamente enganosa!

A vida não é fácil e pior é a vida nos países pobres.

Percebemos tudo isso e acho que devemos tentar ajudar no que se pode ajudar. E não devemos fugir de tentar ajudar. Há muita gente que pede ajuda, porque não há outra forma de resolver os problemas. Sabemos disso!

Contudo, temos que tomar cuidado para não cairmos no Assistencialismo Democrático! Passarmos a ser um povo que só sabe esticar os braços para pedir! Pensar que tudo se deve adquirir por via de favores “democráticos” ou por relações de compadrio.

Não podemos permitir que certas atitudes venham a transformar-se em uma cultura predominante ou que o “expediente” venha ser a regra! O povo caboverdeano não teve essa cultura.

Por vezes, eu compreendo o cansaço dos decisores. Ainda bem que a nossa população não tem 4 ou 5 milhões de pessoas.

Espero que este artigo não esteja a chegar tarde demais. Acho que não!

É evidente que não incluo no rol do que foi dito o direito e as legítimas aspirações dos cidadãos, que andam a batalhar para verem os seus problemas resolvidos e que só ainda não foram resolvidos por incúria, desleixo ou até em certos casos por maldades ou represálias diversas. Esses são direitos e expectativas legítimos.

2 COMENTÁRIOS

  1. A reflexão do Maika é tão pertinente quanto atual, porquanto, ao mais alto nível da esfera do Estado a questão de põe ainda com maior preocupação. Repare que o presidente da república, para fazer uma deslocação complemente desnecessária e sem valor, investiu milhões de contos que são suficientes para fazer uma viagem à volta da terra em vôo comercial. Chega a hora de a deslocação necessário, sacode a água do seu capote e finge ser solidário com este povo sofredor. Repare, Maika também que o então candidato a presidente da república se socorreu de uma farsa associação para atrair os votos dos católicos. Terminadas as eleições, o sujeito nem à das igrejas comparece. Ou seja, para tudo, neste país, “vale o jeitinho”. O problema é que nenhum país se desenvolveu às custas dessas malandragens. Parafraseando o Roberto da Marta, “somos um país de carnavais e
    de malandros”.

  2. Eu, Emanuel Avelino Barros, o Cuena, estou pensando no castigo que os caboverdianos tem em aceitar e suportar as pensoes dos politicos ou dos que fazem da politica, carreira profissional.
    Deste modo, a vista simples me questiono se nao sera razoavel as nossas comunidade na terra firme ou no estrangeiro exigir uma caucao monetaria consideravel aos que estao e aos novos, que sao apresentados para a choruda profissao da politica nas nossas circunscricoes eleitorais para ser aplicados no desemprego e outras coisas de interesse pratico da vida comunitaria e, de, consequencias positivas nas assimetrias regionais, que basta vezes nao passam bonitas palavras.
    Cuerna o exilado que vive nos EUA esta muito atento a essa problematica e, em tempo util fara uma comunicao a nacao caboverdiana.
    Com amor

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