Poucos são os países no Atlântico que têm um Terminal de Cruzeiros, e ainda menos os que possuem uma infraestrutura com a qualidade da nossa. Cabo Verde, pequeno em dimensão mas ousado na visão, teve o atrevimento de se posicionar como um concorrente à altura na rota atlântica do turismo de cruzeiros. Cada navio que recebemos é uma projecção positiva do país no exterior, uma montra da nossa hospitalidade e capacidade. E, convenhamos, isso não interessa a todos.
Não estou aqui a afirmar que houve sabotagem, mas a atitude do comandante do navio que se recusou a atracar, sem sequer ter tentado, levanta questões que não podem ser ignoradas e merecem ser esclarecidas. Não houve qualquer impedimento técnico: o novo pontão tem 400 metros de comprimento e um calado de 11 metros de profundidade. O navio em causa tem 206 metros de comprimento e um calado de 4,5 metros — claramente dentro dos parâmetros de segurança e operacionalidade do terminal.
Mais ainda: foi oferecida ao comandante a possibilidade de atracar no outro porto da ilha, o mesmo que há décadas tem um histórico de receber navios de cruzeiro com toda a normalidade. Também aí a resposta foi negativa. Este detalhe afasta completamente qualquer hipótese de haver um problema com a qualidade da obra e reforça a necessidade de esclarecer as verdadeiras razões da recusa.
Segundo informações da ENAPOR, o comandante do navio não permitiu sequer a entrada a bordo do Comandante do Porto, contrariando práticas protocolares estabelecidas internacionalmente. Este comportamento, que foge ao padrão, exige uma resposta à pergunta inevitável: quem ganha com o insucesso do Terminal de Cruzeiros do Mindelo ?
Internamente, vimos segmentos da oposição a tentar explorar o episódio da não atracação como um fracasso da obra, como se disso resultasse um ganho político — quase como se estivessem prontos para celebrar. Para ser justo, ouvi deputados do PAICV e da UCID eleitos por São Vicente a reconhecerem o valor do terminal e a destacarem tratar-se de uma grande obra para Cabo Verde. Contudo, ao mesmo tempo que o Deputado João do Carmo valorizava o investimento em plena emissão radiofónica do programa “Direto ao Ponto”, o Deputado Clóvis Silva, eleito pelo circulo eleitoral da Brava pedia uma sindicância à obra. A pressa em encontrar um ponto negativo a explorar politicamente leva, muitas vezes, a cair em contradições e precipitações.
São Vicente ganha com o Terminal. Os cabo-verdianos ganham. Cabo Verde afirma-se, com esta infraestrutura, como um player estratégico no Atlântico, apto a disputar um mercado exigente e de alto valor acrescentado como é o dos cruzeiristas. A aposta está feita. E, perante qualquer tentativa de descredibilização ou manipulação, a pergunta permanecerá no ar, incómoda e pertinente: quem ganha com o insucesso do Terminal de Cruzeiros do Mindelo ?


