Reflexão após a entrevista do Dr. Carlos Veiga na RTC

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Ouvi com atenção a recente entrevista do Dr. Carlos Veiga na RTC, a propósito dos 50 anos da nossa independência, e não podia deixar de partilhar algumas notas — tanto pela riqueza histórica dos testemunhos, como pelo exemplo de elegância que ele nos dá num tempo em que o debate público precisa, mais do que nunca, de serenidade e respeito.

Elegância que faz falta

Desde o início, impressiona a forma desarmada com que Veiga aborda o passado: elogia onde há mérito, reconhece responsabilidades sem receio e respeita opiniões contrárias com naturalidade. Essa atitude — discutir com firmeza, mas com elevação — faz-nos imensa falta na arena política cabo-verdiana atual.

Da abertura política à fundação do MpD (1990)

Veiga recordou a coragem de pôr fim ao regime de partido único, permitindo o surgimento do pluralismo. A fundação do MpD em 1990 foi o ponto de viragem que abriu caminho à democracia real — sem milícias, sem tribunais de zona, sem imposições ideológicas.

As eleições de 1991 e a consagração da mudança

Nas primeiras eleições verdadeiramente plurais, em 1991, o povo votou em massa por mudança. O MpD venceu com maioria qualificada e iniciou uma profunda reforma institucional e política. Essa vitória deu legitimidade à aprovação da Constituição de 1992, que consagrou Cabo Verde como um Estado de direito liberal e democrático, com garantias de liberdade, pluralismo e alternância no poder.

Cisão posterior e reforço da maioria em 1996

A cisão que deu origem ao PCD ocorreu após as eleições de 1991. Mas é importante sublinhar — como o próprio Veiga fez questão de lembrar — que essa divisão não enfraqueceu o MpD. Pelo contrário: em 1996, o MpD renovou o mandato com uma maioria qualificada ainda mais expressiva. Fica assim desmentida, com dados e factos, a narrativa usada por alguns setores do partido que culpam os antigos membros do PCD pelos anos seguintes de oposição.

Economia aberta e salto de desenvolvimento

Veiga destacou também o impacto transformador da liberalização económica dos anos 90, que lançou as bases da estabilidade macroeconómica e permitiu a Cabo Verde atingir o estatuto de país de rendimento médio-alto. Uma conquista que exige ser reconhecida, porque moldou o futuro do país.

O exemplo de 2001: respeito institucional acima de tudo

Outro momento marcante da sua trajetória política foi a eleição presidencial de 2001. Veiga perdeu oficialmente por apenas 12 votos, apesar das provas de fraude em zonas como Santiago, Fogo e São Nicolau — com votos atribuídos a mortos e emigrantes ausentes. Os factos foram reconhecidos em sede judicial, com condenações de arguidos, como testemunhei pessoalmente enquanto seu advogado e mandatário na ilha do Fogo.
Ainda assim, Carlos Veiga aceitou com grandeza o resultado proclamado pelo Supremo Tribunal de Justiça, órgão competente à época, e nunca incentivou a instabilidade. Um verdadeiro democrata sabe que a legitimidade nasce nas urnas, mas se sustenta no respeito pelas instituições.
“A democracia não se impõe; conquista-se todos os dias com diálogo, tolerância e verdade.” — Carlos Veiga

Uma lição de coerência e maturidade política

O testemunho de Carlos Veiga é mais do que memória — é uma lição de coerência, coragem cívica e respeito pela verdade histórica. Criticar os abusos do passado autoritário não é destruir nada — é preservar os alicerces da liberdade conquistada com esforço.
É preciso reabilitar o debate sério, respeitador e construtivo, livre de mitos e falsificações, ancorado em factos e em valores.

Que este exemplo inspire todos os que acreditam numa democracia madura, com memória, com ética e com verdade.

1 COMENTÁRIO

  1. Um retrato fiel deste homem, político coerente e consequente, que demonstrou ao mundo, de forma clara e enequivoca que o ter razão não implica criar efervescência no tecido social que não deixaria de criar estigmas que perdurariam indelevelmente no tempo. Hoje voltando a página o seu exemplo nos revela a sua grandeza de cidadão que sempre pregou como doutrina a necessidade da paz e concórdia entre os nossos patrícios como garante de estabilidade. Não privilegiar o seu ego faz parte do seu equilibrio mental.

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