“Runho” ontem, visionário hoje: a arte da reinvenção política

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[1] Depois de ter prometido ao cidadão que cada um podia construir onde e como quisesse — e que Óscar era “runho” por não permitir a anarquia — eis a súbita epifania.

[2] No dia 15 de agosto, mal tinham secado as poças da inundação em Mindelo, lá estava o nobelíssimo Secretário-Geral do PAICV, o nosso Dr. Vladimir Ferreira, a ler na comunicação social um comunicado que parecia saído de um manual de governança sueca. Entre as frases carregadas de solenidade, brilhou a jóia da coroa: o PAICV exige “a implementação rigorosa de instrumentos de planeamento urbanístico”.

[3] Sim o mancebo, leu bem: rigor urbanístico. O mesmo PAICV que, há poucos anos, achava o “rigor” uma invenção malévola do Presidente Óscar — esse senhor tão cruel e “runho” que ousava não deixar os cidadãos levantar barracas, casas improvisadas e toda a sorte de construções condenadas a cair nos bairros caóticos de uma cidade desorganizada. A narrativa de então era cristalina: planeamento urbano era sinónimo de arrogância, elitismo e, claro, falta de humildade.

[4] Mas eis que, depois de a água levar meio Mindelo, o partido descobre a luz: afinal, o tal rigor até faz sentido. De repente, o vilão de ontem é o profeta de hoje, e o que antes era “runhice” agora veste o manto de “responsabilidade urbanística”. Numa tentativa óbvia de tirar o corpo fora, já se ouve o argumento preventivo: “se der errado, nós nunca defendemos a desordem urbanística; fomos sempre os paladinos da ordem urbana”.

[5] Convenhamos, não é contradição — é talento. Poucos partidos conseguem, com tanta classe, defender hoje exatamente o contrário do que condenaram ontem e ainda posar de guardiões da virtude. Quem sabe, um dia, não publiquem um manual intitulado: “Como reinventar-se depois de cada patada: lições práticas de planeamento urbano seletivo”.

[6] Até lá, sigamos a novela. No próximo episódio, talvez o PAICV exija a proibição da construção clandestina. E, claro, com a mesma cara séria de sempre, como se nunca tivesse dito o oposto. Pior ainda: enquanto a Cidade da Praia continua entregue à sua própria desordem urbana, sob o olhar cúmplice de quem agora jura ter descoberto o rigor.

1 COMENTÁRIO

  1. Pois é O Ulisses Correia e Silva e Oscar Santos são os unicos que tentaram organizar a cidade da Praia com a criação da guarda Municipal que na altura foi fortemenete contestado por militantes do PAICV . Quem não se lembra da campanha de sensibilização nos mercados e nas ruas com o Sr Abailardo que trabalhou com o Ulisses? Quem não se lembra da pedonal quando foi inaugurada? quem não se lembra do Mercado organizado, limpo e sem vendedores ambulantes? Quem não se lembra dos guardas Munisipais a controlar entrada e saída no Mercado do Plateau? Quem não se lembra da recolha de lixo porta á porta ?? O complexado de vila nova veio para acabar com tudo que é organização, disciplina e higiene. O resultado é o que a Praia é neste momento : Um mercado a Céu aberto, sujo, indicente e cheio de gente sem educação sem civismo e sem urbanidade.

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