“Em abono da verdade, se os sindicatos demonstram tanto zelo com o aumento calórico dos trabalhadores da função pública — sobretudo nos serviços sob responsabilidade do Governo — o mesmo não se pode dizer quando o assunto é a Câmara Municipal da Praia.”
[1] O que nos leva a crer que os sindicatos são, afinal, é uma questão de dieta alimentar?
[2] Nos últimos dez anos, os sindicatos mais amarelados de Cabo Verde — que, durante quinze (15) anos anteriores, se mantiveram quietos, dóceis e perfeitamente alinhados com a lábia dos governos do PAICV — pouco ou nada fizeram para que, por exemplo, professores e médicos cabo-verdianos tivessem aumentos salariais significativos, capazes de os elevar ao patamar dos mais bem pagos do continente.
[3] Hoje, no caso dos médicos, o salário já supera o de alguns países europeus. Mas, naquele tempo, os sindicatos estavam confortavelmente comprometidos com a agenda do Governo do PAICV e com a “saúde” dos trabalhadores. Afinal, como se sabe, quem não come não engorda — e a obesidade mata.
[4] Eis que, bri si, muda o governo. E, com ele, muda também a preocupação sindical. Agora, os sindicatos parecem inquietos com a “gordura” dos trabalhadores: quem ganha mais, come mais; e quem come mais é mais feliz.
[5] Para os sindicatos, tornou-se quase imperdoável que a senhora das cantinas escolares — que, no tempo do PAICV, recebia 6 contos [mesmo com um salário mínimo de 11, com o governo a “fanar”5 contos na cara dura] — passe hoje a ganhar 19 contos. Um aumento perigoso, convenhamos. Porque permite comer melhor. E, como já sabemos, comer melhor pode levar a comer demais. E comer demais engorda.
[6] Em abono da verdade, se os sindicatos demonstram tanto zelo com o aumento calórico dos trabalhadores da função pública — sobretudo nos serviços sob responsabilidade do Governo — o mesmo não se pode dizer quando o assunto é a Câmara Municipal da Praia.
[7] Tal como afirmou o presidente da CMP, Francisco Carvalho — “es fazi grevi, nu dexa-s lá”, referindo-se aos bombeiros — também os sindicatos parecem ter adotado a mesma filosofia: “dexa-s lá” os funcionários com salários em atraso na Câmara.
[8] E, de facto, percebe-se a lógica. Onde já se viu um trabalhador receber o salário no fim do mês, “bámbá kumesa kumi”, alimentar-se com regularidade e, quem sabe, até engordar? Seria um risco demasiado grande. E há que agradecer aos sindicatos por não permitirem que os funcionários da Câmara Municipal da Praia caiam na tentação de querer comer.


