O surto de hantavírus associado ao cruzeiro MV Hondius transformou uma viagem turística à Antártida numa emergência sanitária internacional, com mortos, casos confirmados em vários países e operações de evacuação médica
Cabo Verde entrou no centro da crise a 3 de maio, quando o navio fundeou ao largo do Porto da Praia. Perante o risco de propagação do vírus, as autoridades Cabo-verdianas recusaram a atracação do navio, numa decisão tomada para proteger a saúde pública nacional conforme defendeu o Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva.
A embarcação, pertencente à empresa Oceanwide Expeditions, partiu da Argentina rumo à Antártida a 20 de março. Ao longo da viagem, vários passageiros desenvolveram sintomas graves, incluindo febre, dificuldades respiratórias e problemas gastrointestinais. O balanço mais recente aponta para seis casos confirmados, três mortes e vários casos suspeitos monitorizados pela Organização Mundial da Saúde.
Como começou o surto
A viagem teve início em Tierra del Fuego, na Patagónia Argentina, a 20 de março. Depois da passagem pela Antártida, o navio regressou a Ushuaia, de onde partiu novamente a 1 de abril com 149 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulantes de 23 nacionalidades.
O primeiro caso grave foi registado a 6 de abril, quando um passageiro Neerlandês de 60 anos começou a apresentar febre, dores abdominais, diarreia e dores de cabeça. O homem morreu a 11 de abril, após desenvolver dificuldades respiratórias severas.
Dias depois, a sua esposa, de 69 anos, também adoeceu. A mulher desembarcou na Ilha de Santa Helena a 24 de abril para acompanhar o corpo do marido, mas acabou por morrer dois dias depois num hospital da África do Sul. Mais tarde, foi confirmado que estava infetada com hantavírus.
Entretanto, outros passageiros e membros da tripulação começaram a apresentar sintomas semelhantes. A 2 de maio, uma passageira Alemã morreu a bordo, tornando-se a terceira vítima mortal associada ao surto. No mesmo dia, um Britânico hospitalizado na África do Sul tornou-se o primeiro caso oficialmente confirmado de infeção pelo hantavírus.
Cabo Verde impede desembarque
Com o aumento da preocupação internacional, o MV Hondius aproximou-se de Cabo Verde e lançou âncora ao largo da Cidade da Praia a 3 de maio. Nessa altura, já havia três mortos e vários passageiros com sintomas compatíveis com hantavírus.
As autoridades Cabo-verdianas decidiram não autorizar a atracação do navio nem o desembarque de passageiros ou transferência de doentes para unidades hospitalares nacionais. A decisão foi tomada por razões de segurança sanitária e proteção da população Cabo-verdiana.
Apesar da recusa de entrada no porto, equipas médicas Cabo-verdianas deslocaram-se ao navio para avaliação clínica dos passageiros e recolha de amostras para análises laboratoriais. Entre os doentes encontrava-se o próprio médico de bordo.
A 4 de maio, Cabo Verde manteve a posição de impedir a atracação, enquanto a OMS procurava alternativas para assistência aos passageiros e doentes. A OMS apelou a uma solução baseada no “cumprimento do Direito Internacional e no espírito humanitário”.
Transferências médicas e chegada a Espanha
No dia 6 de maio, três pessoas consideradas suspeitas de infeção foram retiradas do navio por aviões ambulância e transportadas da Cidade da praia para os Países Baixos. Dois dos passageiros estavam em estado grave.
No mesmo dia, o MV Hondius deixou águas Cabo-verdianas e seguiu rumo às Ilhas Canárias, em Espanha. Durante a travessia, os passageiros permaneceram confinados nos camarotes, podendo apenas sair em horários controlados para pequenos períodos no convés.
A OMS confirmou posteriormente que todos os casos positivos estavam associados à variante Andes do hantavírus, conhecida por ser transmissível entre humanos, embora especialistas internacionais insistam que não existem sinais de risco de pandemia global.
Navio chega às Canárias
O navio atracou este domingo, 10 de maio, no porto de Granadilla de Abona, em Tenerife, onde teve início uma operação internacional de desembarque e repatriamento dos passageiros e tripulantes.
Segundo as autoridades Espanholas, todo o processo foi realizado sem contacto com a população local. Vários países europeus organizaram voos especiais para repatriar os cidadãos envolvidos no surto.
A OMS considera todos os passageiros e membros da tripulação do MV Hondius como contactos de alto risco, mantendo a monitorização internacional do caso.


