No passado fim-de-semana, tive a oportunidade de participar, a convite da Câmara Municipal do Sal, em mais uma edição das Jornadas Atlânticas do Turismo, realizadas no belíssimo concelho de Velas, ilha de São Jorge, nos Açores. Um importante espaço de reflexão e partilha que juntou os municípios de Velas, Sal e Porto Santo da Madeira, além de diversos convidados, entre eles o presidente do Governo dos Açores.
Coube-me abordar, ao lado de conferencistas de Velas e Porto Santo, o tema “Influência do turismo na qualidade de vida das comunidades locais”, partilhando um pouco da experiência da ilha do Sal e, sobretudo, procurando lançar algumas pistas sobre aquilo que considero dever ser a próxima etapa do nosso desenvolvimento turístico.
O Sal construiu, ao longo das últimas décadas, uma extraordinária capacidade turística. Mas o desafio de hoje já não pode resumir-se a perguntar quantos turistas conseguimos trazer. Precisamos perguntar, cada vez mais, quanto valor cada turista deixa na ilha e quanto desse valor chega efetivamente à comunidade.
Foi neste contexto que apresentei três propostas para um novo modelo de turismo no Sal.
Primeiro, mais integração local. Os hotéis e operadores turísticos devem comprar mais à economia cabo-verdiana: mais pescado, produtos agrícolas e hortícolas, artesanato, serviços e experiências locais. Quanto maior for a integração das nossas empresas e produtores na cadeia turística, maior será o impacto do setor no rendimento das famílias.
Segundo, mais retorno social. O crescimento do turismo deve refletir-se na melhoria da vida das pessoas. Mais turismo deve significar também melhores condições na educação, saúde, habitação, ambiente, mobilidade e espaços públicos.
Terceiro, mais identidade. Quem visita o Sal não deve regressar a casa apenas com uma bela fotografia das nossas lindas praias. Deve levar consigo uma verdadeira experiência de Cabo Verde: a nossa cultura, gastronomia, música, história e, sobretudo, o contacto com as nossas comunidades.
O Sal concentra hoje uma parte muito significativa da capacidade hoteleira de Cabo Verde. Isso representa força económica, mas também aumenta a nossa exposição às crises externas. A pandemia da Covid19 mostrou-nos claramente os riscos de uma economia excessivamente dependente de um único setor.
Por isso, precisamos avançar de uma lógica de mais turistas para uma lógica de mais valor.
Não basta construir mais hotéis. É preciso que o turismo ajude a construir uma comunidade melhor, mais qualificada, inclusiva e sustentável.
No final, o verdadeiro sucesso do turismo não pode ser medido apenas pelo número de turistas, quartos ou dormidas. Deve ser medido também pelos empregos criados, pela força das empresas locais, pelas oportunidades oferecidas aos jovens e pela qualidade de vida das famílias.
Porque, depois de o turista regressar a casa, permanece uma questão fundamental: como fica a comunidade que o recebeu?
É aí que começa, verdadeiramente, o debate sobre turismo e qualidade de vida.





