[1] Muitos de nós talvez já não se lembrem, como diz o velho ditado: “a memória do povo é curta.” Mas há quem não esqueça facilmente. Porque entre dois dedos nos olhos e “un kamoka terra”, malandro, sempre há alguém que guarda tudo na cabeça — “tintim pa tintim”.
[2] E isto vem a propósito de quê? Digamos da forma memorável como, durante 15 anos, o Governo do PAICV lidou com as crises que iam aparecendo. E, entre essas crises, houve uma que marcou profundamente o país: o dia em que o vulcão da Ilha do Fogo “kumesa ta pega lumi“ e a população de Chã das Caldeiras teve de ser evacuada às pressas, enquanto a lava fez o que lava faz: avançou sem pedir licença, engoliu casas, terrenos e deixou muitas famílias literalmente sem chão.
[3] Perante aquela tragédia, no dia 9 de dezembro de 2014 , o Governo do PAICV apareceu com uma solução que, no papel, parecia patriótica: aumentar o IVA em 0,5% para ajudar na reconstrução de Chã. Uma ideia que, convenhamos, parecia razoável — “ti Nhordez fika kontenti” — porque, se meio mundo estava preocupado e a ajudar Cabo Verde, então também era justo que os cabo-verdianos dessem a sua contribuição. Afinal, tratava-se de solidariedade nacional. E havia uma promessa bonita para acompanhar o imposto: 110 casas destruídas pela erupção seriam reconstruídas e entregues às famílias, assim que o vulcão se acalmasse.
[4] Durante um ano inteiro, o Governo do PAICV recolheu 0,5% sobre praticamente tudo o que se vendia e comprava — de pratos de comida a moedas de paródia. Era o sacrifício coletivo em nome da reconstrução de 110 casas e da vila de Chã das Caldeiras. Só que, como às vezes acontece no tempo da gestão de José Maria Neves, a história acabou por ser um clássico caso de dois dedos nos olhos e “un kamoka terra”, malandro. É que, depois de recolhido o imposto, nenhuma casa foi construída. Nem uma. Zero. Nadinha de nada. E até hoje ninguém sabe explicar com grande clareza o que foi feito com todo aquele dinheiro. O mais curioso é que o próprio Governo chegou a anunciar um contrato com uma empresa de construção civil para reconstruir as casas. O problema é que, pelo que se viu no terreno, a empresa deve ter ficado responsável apenas pela parte rei di sabi do contrato ― ou seja: parte do dinheiro ter aparecido.
[5] Foi preciso mudar o governo para que a história tivesse um final diferente. Já com o executivo liderado por Ulisses Correia e Silva, a população de Chã das Caldeiras começou finalmente a receber casas novas — daquelas que existem fora de conferências de imprensa. E mais do que casas: praticamente toda a localidade foi reconstruída, com estradas, infraestruturas turísticas e unidades industriais.
[6] E isto diz muito sobre como se governa em tempos de crise.
[7] Convenhamos: a erupção na Ilha do Fogo foi grave — mas nem de longe se compara às crises que o governo de Ulisses Correia e Silva enfrentou nestes 10 anos de governação. Houve pandemia global, turismo praticamente parado e economia internacional em convulsão. Chegámos ao ponto de viver algo quase inimaginável: um país fechado durante dois meses — ninguém entrava, ninguém saía. E, curiosamente, não houve aumento de impostos para resolver a crise. Pelo contrário: o país saiu da pandemia com um dos maiores crescimentos económicos da sua história. As reservas externas — o famoso pé-de-meia nacional — passaram de 500 milhões de euros em 2016 para cerca de +1000 milhões de euros em 2026 .
[8] Mas pronto. Como diz o ditado: “a memória do povo é curta.” Mas quem levou com dois dedos nos olhos e “un kamoka terra”, malandro. A memória não devia ser curta.


