Ulisses faz muito bem em pedir uma maioria clara

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Num país como Cabo Verde, que vive em democracia multipartidária desde 1991, com eleições legislativas marcadas agora para 17 de maio de 2026, a experiência acumulada mostra uma coisa com bastante nitidez: a estabilidade governativa é um valor essencial para consolidar desenvolvimento, confiança e credibilidade externa.

Um país de rendimento médio alto, a caminho de patamares mais elevados, não pode viver na fragilidade política.

Quanto mais o país sobe em exigência, mais precisa de governos com direção clara, responsabilidade definida e capacidade efetiva de decisão. Desenvolvimento sério não combina com hesitações permanentes, chantagens parlamentares ou soluções improvisadas de sobrevivência política.

Ao longo dos últimos 35 anos de democracia, o sistema cabo-verdiano afirmou-se, na prática, como um sistema de disputa essencialmente entre dois grandes partidos, com alternância e estabilidade. Isso não elimina o pluralismo, mas mostra que, em momentos decisivos, o país tem funcionado melhor quando há uma maioria suficientemente robusta para governar, executar o programa sufragado e responder pelos resultados.

Maioria clara não é arrogância. É legitimidade, coerência e governabilidade.

Quem pede uma maioria clara não está a pedir poder sem controlo. Está a pedir condições para governar com consistência, sem ficar dependente de equilíbrios precários ou de alianças frágeis que, muitas vezes, enfraquecem a ação do executivo e confundem a vontade popular.

No caso concreto da UCID, com todo o respeito institucional que merece, é legítimo defender que ainda não demonstrou maturidade política e dimensão estratégica suficientes para sustentar, com segurança, uma solução de coligação governativa estável num contexto nacional exigente. O próprio presidente da UCID defendeu recentemente um cenário de governo sem maioria absoluta, “politicamente equilibrado”, o que mostra que essa é hoje a aposta desse partido.

Mas a verdade é esta: governos de coligação só funcionam bem quando assentam em elevada maturidade institucional, forte disciplina política, visão convergente de Estado e cultura sólida de compromisso. Sem isso, o risco é grande: conflitos internos, bloqueios, instabilidade e perda de foco. Num país arquipelágico, vulnerável a choques externos e dependente de confiança interna e internacional, um governo frágil pode custar caro ao desenvolvimento.

Cabo Verde ganha mais com clareza do que com arranjos.

Ganha mais com um executivo estável do que com uma maioria remendada.
Ganha mais com responsabilidade política concentrada do que com desculpas partilhadas.
Ganha mais com um rumo firme do que com experiências frágeis.

Por isso, a defesa de uma maioria clara não é apenas uma palavra de campanha.

É uma opção de responsabilidade nacional.