Ao revisitar o livro sobre a transição democrática em Cabo Verde e ao ler atentamente o texto do Dr. Alfredo Teixeira, torna-se claro que a nossa democracia não nasceu por acaso nem por mera concessão política. Custou debate, tensão, negociação séria e, sobretudo, coragem histórica.
Após a independência, em 1975, instituiu-se o regime de partido único. O PAIGC — depois PAICV — assumiu-se como força dirigente da sociedade e do Estado, princípio consagrado constitucionalmente em 1980. O poder político confundia-se com o partido; o Estado e a sociedade civil orbitavam à volta de uma única estrutura.
Durante anos, defendeu-se que o multipartidarismo não se ajustava à realidade africana. A unidade era apresentada como superior ao pluralismo. Porém, a história demonstrou que estabilidade sem liberdade é apenas silêncio imposto.
No final dos anos 80, fatores internos e externos precipitaram a mudança: a queda do bloco socialista, a pressão internacional pela democratização, a mobilização crescente da sociedade civil, o questionamento da Igreja e até tensões dentro do próprio partido no poder.
Em 1990, a questão deixou de ser “reformar” o regime e passou a ser substituí-lo. A revogação do artigo 4.º da Constituição, que consagrava o partido único, abriu caminho ao pluralismo político e às eleições livres de 1991. A alternância consolidou-se.
É por isso que não podemos tratar a democracia como algo garantido para sempre. Ela custou muito ao país. Custou confrontos políticos, riscos pessoais, negociações difíceis e uma rutura clara com práticas como milícias populares, tribunais de zona e a fusão entre partido e Estado.
Preocupa, por isso, quando hoje se escutam discursos que parecem relativizar esse passado ou flertar com valores que pertencem ao tempo do partido único. A democracia exige vigilância permanente. Não é apenas votar — é respeitar a separação de poderes, a liberdade de expressão e o pluralismo político real.
A memória não serve para alimentar ressentimentos. Serve para impedir retrocessos.
Cabo Verde escolheu a liberdade. E essa escolha deve ser defendida todos os dias.


