Factos relacionados com o 13 de Janeiro

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Há muitos factos relacionados com o processo que conduziu ao 13 de Janeiro, que não são do conhecimento público. Aliás, sobre esse processo, pouco se escreveu. É pena.

Existe um mar de ensinamentos, tanto do lado do poder de então como do lado da oposição, que podiam ser interessantes e inspiradores para a actual geração e a geração futura.

E se estes registos forem de interesse, tinham que ser feitos antes da partida dos seus principais protagonistas.

Neste momento, gostaria de partilhar um dos episódios, que aconteceu numa das centenas de reuniões do embrião, que veio a dar corpo ao Movimento para Democracia (MPD).

O episódio tem o valor que tem. É apenas um registo de memória.

Estávamos na fase de coordenação provisória do MPD. E o coordenador, como é sabido, era o Dr. Carlos Veiga.

E a reunião a que me refiro, ocorreu no seu escritório, no Plateau, na Rua Amílcar Cabral, antiga Rua Sá da Bandeira.

Nessa reunião estavam os quinze membros, que faziam parte da Comissão Coordenadora Provisória do MPD, e a agenda era debater a estratégia do Movimento, para as eleições legislativas e presidenciais.

Dissecada a estratégia para as legislativas, começou-se a debater qual seria o nosso posicionamento em relação às presidenciais.

Sobre as legislativas havia um consenso sólido. Elas eram a nossa aposta principal.

Enquanto o Paicv queria agendar primeiro as eleições presidenciais, nós, ferreamente, defendíamos a precedência das eleições legislativas.

Por acordo entre os dois partidos, ficou agendado que as legislativas ocorriam em primeiro lugar. A nossa tese, com argumentos sólidos, acabou por vingar-se.

Falava da nossa estratégia, para as presidenciais.

No calor do debate, e dado ao peso das responsabilidades, qualquer erro de estratégia, seria mortal.

Por este motivo, tudo era analisado ao pormenor e com a máxima abertura de espírito.

Sem falsa modéstia, o que nos salvou sempre foi a capacidade política dos quinze elementos, que faziam parte da direcção provisória do Movimento.

Na dita reunião, a maioria dos membros defendia que o MPD não devia avançar com um candidato às presidenciais.

Os argumentos eram que o candidato do Paicv, Aristides Pereira, era um forte candidato, tinha uma respeitabilidade reconhecida na sociedade, tinha o apoio da Igreja Católica e que, nesse contexto, seria melhor não arriscar uma candidatura com o nosso apoio.

E que era muito difícil, o Movimento encontrar, no momento, uma figura capaz de fazer frente à figura de Aristides Pereira, e que era melhor que o Movimento concentrasse todas as suas energias nas legislativas.

Como se pode ver os argumentos eram fortes, tendo em conta o contexto daquele momento. Contudo, eu defendi uma posição contrária.

Concordando em absoluto com os argumentos dos colegas em relação às eleições legislativas, defendi que não faria sentido nenhum um Movimento, embora recém-criado, num contexto de roptura de regime, não apresentar ou apoiar um candidato presidencial.

Defendi que o Movimento devia arriscar todos os seus trunfos e passar à sociedade um espírito de pujança, de confiança e de determinação, e que estávamos preparados, para assumirmos os desafios das duas eleições, legislativas e presidenciais.

E que essa determinação dava-nos ainda maior credibilidade e servia como uma forte mensagem ao nosso adversário, de que estávamos preparados para todos os desafios.

Esgrimidos todos os argumentos, fomos à votação.

Todos os meus colegas votaram contra a apresentação de um candidato presidencial. Um único voto contra, o meu voto. Fui, esmagadoramente, derrotado.

No dia seguinte, fui ter com o Dr. Eurico Monteiro, em sua casa.

Retomei o assunto das presidenciais. Tivemos umas quatro horas de conversa. No final, ele acabou por compreender as razões da minha posição.

Dias depois, marcou-se uma reunião da direcção provisória, para se debater de novo a estratégia presidencial.

Note-se que entre os colegas, havia um espírito de total abertura e havia uma motivação sem limites, para se debater tudo e procurar as melhores soluções.

Confesso que nunca mais encontrei uma equipa com tal atitude. A equipa funcionava como um relógio, ninguém diminuía a opinião do outro e tudo era submetido à votação.

Debatido de novo a estratégia, e a decisão foi tomada por unanimidade.

O MPD iria apoiar um candidato presidencial. E nessa reunião foi identificado quem seria o nosso candidato, Dr. António Mascarenhas.

O Coordenador do Movimento, Dr. Carlos Veiga, ficou encarregado de fazer o contacto e na I Convenção do MPD o Dr. António Mascarenhas teve uma longa e estridente ovação.

E o resto da história, é do conhecimento público.

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