Janira Hopffer Almada e o seu infeliz slogan “Um Cabo Verde para todos”

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Corre por aí, frenética e abusiva, a nova moda do PAICV, tentando, a todo o custo, manipular os cabo-verdianos a partir do paradigma do esquecimento, do total apagamento da memória e da “não-inscrição”, como diria, em termos incisivos, o filósofo lusitano José Gil.

Trata-se de um slogan político manifestamente despropositado. Oco.

Ora, o facto é que o PAICV nunca defendeu “Um Cabo Verde para todos”. Isso é pura mistificação.

Nascido a partir do golpe de Estado de “Nino” Vieira e do seu famoso movimento reajustador, o PAICV sempre foi, pelo contrário, o partido da discriminação e da ditadura.

Nunca promoveu a inclusão neste País situado no vastíssimo Atlântico e sempre propugnou, abertamente, o ideal (totalitário) dos “melhores filhos da nossa terra”, herdado, afinal, do partido-vanguarda proposto historicamente por Lenine.

Só eles é que valiam alguma coisa. O resto era…resto!

Acaba de sair um livro muito interessante e instrutivo de José Tomás Veiga, com a chancela da Livraria Pedro Cardoso, sobre, precisamente, a natureza totalitária do PAIGC-CV, trazendo muitos aspectos que os jovens deste país a meu ver desconhecem por completo, ainda por cima no quadro de um sistema de ensino, guiado por peregrinas “filosofias” educativas, que não tem promovido nem a verdade histórica nem o rigoroso conhecimento científico.

A desinformação é algo que incomoda.

Comprei, ontem, 22 de Março, o livro de JTV e li-o praticamente de um trago, mormente nos seus aspectos basilares e mais relevantes.

O exemplo de José Tomás Veiga é valioso e deve ser seguido por outras figuras que viveram esses tempos tenebrosos.

É um livro sólido, bem construído, que merece ser lido atentamente pelos jovens (e menos jovens…) deste Cabo Verde democrático.

Não é um livro perfeito porque não existem livros perfeitos e parece-me que peca ao omitir alguma bibliografia nacional sobre o assunto e ao não levar em devida conta, nalguns pontos específicos, pelo menos, aquilo que se chama de “revisão da literatura”.

Há certos cânones científicos que é preciso respeitar na íntegra.

José Tomás Veiga conhece o PAIGC por dentro (a chamada “inside information”) e foi, inclusive, Secretário de Estado das Finanças de 1977 a 1979.

Assistiu à implantação do Estado totalitário em Cabo Verde e cedo rompeu com os abusos e as práticas desumanas (o que inclui, numa folha histórica muito triste, torturas, sevícias impensáveis e perseguições clamorosas aos adversários políticos) desse grupo apostado em construir um “homem novo”, bem ao estilo da utopia marxista.

Da minha parte, baseado em múltiplas fontes filosóficas, historiográficas e científicas, sempre defendi, firmemente, ao contrário de alguns, a natureza TOTALITÁRIA do regime instalado pelo PAIGC-CV desde os alvores de 1974-75.

Há quase duas décadas que defendo um tal ponto de vista e isto está, aliás, devidamente documentado, em artigos, ensaios e livros.

Há uma coisa que o nosso pessoal, com mais ou menos influência esquerdista, não percebe e que vou, agora, explicar com mais clareza: TODOS os regimes que pertencem à esfera cultural marxista são necessariamente totalitários, uma vez que defendem uma concepção total da vida (imaginada e imposta, à força, pelo partido-Estado redentor) e a fusão da economia com o domínio político carismático.

É um pensamento agressivo, que não tolera a mais ínfima dissidência e que vai, portanto, muito além do velho “despotismo oriental”.

É este o significado preciso do “homem novo”, o que implica a reconstrução total(itária) da própria sociedade.

É este o verdadeiro cerne da questão.

O PAICV, durante o partido único, nomeava directamente os juízes. É uma vergonha absoluta.

E aprovou leis iníquas e absolutamente dantescas que cercearam, grandemente, a liberdade dos cabo-verdianos.

Nem o princípio “nullum crimen sine lege” escapou, nesses dias conturbados, o que se comprova pela simples leitura do Decreto-Lei n.º 36/75, de 18 de Outubro, praticamente ignorado pela historiografia verdiana sobre o partido único.

Chegou-se ao ponto de consagrar a punição criminal retroactiva!

José Tomás Veiga (nas páginas 175 e seguintes do seu livro) mostra-nos COMO se implantou esse totalitarismo no chão destas ilhas e nos vários sectores da vida sócio-comunitária.

A “polícia política” estava praticamente acima da lei e podia, sem qualquer problema, deter as pessoas durante um período de 90 dias, sem nenhuma culpa formada!

A aplicação prática dessas criações monstruosas do PAIGC-CV deu-se sobretudo em São Vicente em 1977 e em Santo Antão por ocasião do triste 31 de Agosto de 1981, apoteose, dir-se-ia, de um regime bárbaro e sem consideração pela mais básica condição humana.

Havia então um Estado de não-direito ou, rectius, contra o direito.

Havia um Estado absoluto, opressor e despótico e o pobre cidadão cabo-verdiano não tinha quaisquer meios para se defender desse autêntico “cerco” montado pela vanguarda no poder.

Os Ministros actuavam também à margem da legalidade.

São factos que nenhuma propaganda pós-moderna, com fiapos soltos das técnicas de Willi Munzenberg, consegue apagar.

O dr. José Maria Neves (esse espírito mefistélico e confuso que considerou, numa entrevista jornalística bastante recente, a ditadura do partido único como um belo sinal de “liberdade”!!!), quando governou Cabo Verde com mão-de-ferro, entre 2001 e 2015, ou inícios de 2016, nunca deixou de vincar a filosofia dos “melhores filhos da nossa terra”.

Ora, a senhora Janira Hopffer Almada fez parte, durante cerca de 8 anos, desses Governos nevesianos, cuja política errática lançou Cabo Verde num ciclo de baixo crescimento económico, estagnação e alta taxa de desemprego.

Não há nenhum “botox” de última hora capaz de suprimir a realidade.

E não se pode brincar com a inteligência dos cabo-verdianos.

Os principais dirigentes do PAICV, ainda hoje, e publicamente, defendem as virtudes da perversa “democracia nacional revolucionária”. Isso já diz tudo.

Essa gente nunca gostou das mudanças sociopolíticas trazidas pela II República. E nem sequer sabem disfarçar.

Não fizeram qualquer aggiornamento.

Está claramente no seu ADN: o PAICV nunca foi e jamais será o partido de “Um Cabo Verde para todos”.

3 COMENTÁRIOS

  1. Comprei o livro do José Tomas Veiga (JTV) e deliciei-me pelo facto de apresentar ao leitor a possibilidade de uma leitura fácil e, ao mesmo tempo, surpreendente. Confesso que, em razão da minha idade, eu até já conhecia parte do projeto daquela que ficou conhecida a fábrica de atrocidades do Paigc/v. JTV traz, a meu ver, a mais bem conseguida descrição acerca do mais macabro e tenebroso projecto político alguma vez engendrado por mentes crioulas em nossos mais de 500 anos de História. Nem o projecto da escravatura foi tão longe quanto o Paigc/v e JTV vem por outro lado a repor a justiça. Justiça porque regra geral, alguns poucos dos que se aventuraram anteriormente na divulgação da tenebrosa história da ditadura, invariavelmente se arrependeram – qual Síndrome de Estocolmo, voltaram alegremente alegremente para o regaço dos nossos algozes. Foi assim com o Germano Almeida, Onésimo Silveira, e, recentemente, também temos o Humberto Cardoso a querer “fletar” descaradamente com o Paicv, em razão de ressentimentos com a liderança do MpD.

  2. CORREÇÃO
    Comprei o livro do José Tomas Veiga (JTV) e deliciei-me pelo facto de apresentar ao leitor a possibilidade de uma leitura fácil e, ao mesmo tempo, surpreendente. Confesso que, em razão da minha idade, eu até já conhecia parte do projeto daquela que ficou conhecida a fábrica de atrocidades do Paigc/v. JTV traz, a meu ver, a mais bem conseguida descrição acerca do mais macabro e tenebroso projecto político alguma vez engendrado por mentes crioulas em nossos mais de 500 anos de História. Nem o projecto da escravatura foi tão longe quanto o Paigc/v e JTV vem por outro lado a repor a justiça. Justiça porque regra geral, alguns poucos dos que se aventuraram anteriormente na divulgação da tenebrosa história da ditadura, invariavelmente se arrependeram – qual Síndrome de Estocolmo, voltaram alegremente para o regaço dos nossos algozes. Foi assim com o Germano Almeida, Onésimo Silveira, e, recentemente, também temos o Humberto Cardoso a querer “flertar” descaradamente com o Paicv, em razão de seus ressentimentos com a liderança do MpD.

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