As eleições legislativas recentes vieram confirmar aquilo que já se começava a desenhar nas eleições autárquicas de 2024: depois de cerca de dez anos de exercício do poder, o MPD perdeu as eleições num contexto de forte disputa política com o seu principal adversário, o PAICV.
Naturalmente, multiplicam-se hoje as análises, as críticas, as interpretações e até os julgamentos precipitados sobre as causas da derrota. Uns procuram culpados imediatos, outros dramatizam excessivamente os acontecimentos, enquanto alguns parecem querer transformar um resultado eleitoral numa espécie de tragédia nacional. Creio, porém, que devemos olhar para tudo isto com mais serenidade, maturidade e sentido institucional.
Numa democracia madura, a alternância política não é uma anomalia. É, antes, um sinal de funcionamento normal do próprio sistema democrático. Nenhum partido governa eternamente, e nenhum povo deve ser visto como propriedade política permanente de ninguém. O desgaste do poder é um fenómeno natural em qualquer democracia do mundo, sobretudo após longos períodos de governação e com os mesmos protagonistas partidários e governativos.
Por isso, não devemos cair nem na diabolização da derrota nem na tentação de transformar divergências políticas em guerras existenciais. A democracia vive precisamente da possibilidade de alternância, fiscalização e renovação.
Aliás, um dos princípios estruturantes consagrados na nossa Constituição é exatamente o princípio da renovação dos titulares dos órgãos de soberania. A mudança faz parte da essência do regime democrático. O contrário seria a cristalização do poder, incompatível com o espírito pluralista da nossa República.
Cabo Verde deve continuar a seguir em frente com normalidade institucional, estabilidade e respeito mútuo entre adversários políticos. O país é maior do que qualquer partido, qualquer liderança ou qualquer ciclo governativo.
Neste momento, cabe ao novo governo criar condições para governar com tranquilidade e responsabilidade, enquanto ao MPD compete fazer aquilo que os grandes partidos democráticos sabem fazer nos momentos difíceis: refletir, reorganizar-se e preparar o futuro com elevação.
E há sinais positivos nesse processo. O aparecimento de vários candidatos à liderança demonstra vitalidade interna, pluralismo e capacidade de renovação. Isso é saudável. Isso é democrático. Isso mostra que o MPD continua vivo como grande partido do sistema democrático cabo-verdiano.
Mas exatamente por isso, exige-se maturidade política. As disputas internas devem ser serenas, elegantes e civilizadas. O partido deve evitar clivagens desnecessárias, ressentimentos e divisões intestinais que, muitas vezes, acabam por causar mais danos do que a própria derrota eleitoral.
A história do MPD mostra que os momentos mais difíceis foram ultrapassados quando prevaleceram o diálogo, a tolerância interna e a consciência de que nenhum projeto político sobrevive sem unidade mínima e respeito entre os seus próprios militantes.
Agora é tempo de serenidade. Tempo de inteligência política. Tempo de reconstrução responsável.
As democracias fortes não se medem apenas pelas vitórias eleitorais. Medem-se, sobretudo, pela forma como sabem lidar com as derrotas, respeitar a alternância e preparar o regresso ao poder com maturidade, civismo e visão de futuro.
O MPD tem história, quadros, experiência e responsabilidade institucional suficientes para compreender isso.
E Cabo Verde também.