O alegado investimento da Câmara Municipal da Praia, estimado em cerca de 55 mil contos para a aquisição de camiões de recolha de lixo, que chegaram a desfilar pelas ruas da Cidade aquando da sua apresentação, está a revelar-se um verdadeiro fracasso
A realidade é evidente e preocupante. Multiplicam-se as denúncias de lixo acumulado em praticamente todos os bairros da Capital Cabo-verdiana. A população queixa-se da ineficácia dos serviços de limpeza urbana, enquanto da parte da Autarquia reina o silêncio sobre como pretende enfrentar um problema que já constitui uma séria ameaça à saúde pública.
A página Polígrafo Praia Platô foi uma das que denunciou recentemente esta situação. Vive-se um cenário de verdadeira afronta aos moradores da Capital.
Confira o texto
Cidade da Praia afogada no lixo: dois anos e meio depois, investimento de mais de 55 mil contos em camiões de recolha revela-se um fracasso.
Dois anos e meio depois de um investimento de mais de 55 mil contos para aquisição de cinco camiões de recolha de lixo, a Cidade da Praia vive um dos piores momentos em termos de gestão de resíduos sólidos. Ruas e bairros estão a transbordar de lixo, contentores cheios durante dias, zonas residenciais e comerciais a sofrerem com o cheiro nauseabundo e a proliferação de moscas e ratos, numa crise sanitária que se agrava a cada dia.
Os cinco camiões chegaram com pompa e circunstância em dezembro de 2022, com a promessa de resolver os crónicos problemas da recolha de resíduos na capital. Tratava-se, segundo a autarquia, de uma “grande aposta na melhoria do saneamento e na qualidade de vida dos munícipes”. No entanto, pouco mais de dois anos depois, o cenário é desolador: dos cinco camiões adquiridos, nenhum se encontra em funcionamento, segundo fontes ligadas ao serviço de saneamento da Câmara Municipal da Praia.
Falta de manutenção e má gestão
O problema, ao que tudo indica, reside na ausência de um plano de manutenção sério e sustentável, associado a uma gestão ineficaz dos meios técnicos e humanos. As viaturas avariaram uma após outra, sem que houvesse capacidade de resposta atempada para colocá-las novamente operacionais. Há relatos de camiões parados por meses por falta de peças básicas ou por ausência de contratos de manutenção adequados.
“O problema não é falta de dinheiro, é má gestão. Comprar camiões sem garantir o seu funcionamento contínuo é brincar com a saúde pública”, denuncia um técnico do setor, sob anonimato. “Estamos a ver os bairros transformarem-se em lixeiras a céu aberto, com consequências diretas na saúde das populações.”
Crise agravada, soluções ausentes
Em zonas como Achada Santo António, Tira Chapéu, Ponta d’Água, Eugénio Lima e Vila Nova, Achada São Filipe, os contentores estão a abarrotar durante dias, com lixo a acumular-se nos passeios e ruas. Há famílias a queixarem-se de pragas de moscas dentro de casa, e comerciantes a perderem clientes devido ao mau cheiro e ao aspeto insalubre das áreas onde estão localizados.
A autarquia tem sido parca em explicações. Não há comunicações claras sobre o estado da frota, nem planos públicos de contingência. Em algumas zonas, o lixo tem sido recolhido por meios improvisados ou com apoio de empresas privadas, o que tem gerado custos adicionais e acusações de má gestão dos recursos públicos.
Quando o investimento vira desperdício
O caso lança sérias dúvidas sobre o planeamento estratégico da Câmara Municipal da Praia. Como é possível que um investimento tão significativo, superior a 55 mil contos, tenha resultado numa situação ainda pior do que a que se vivia antes da sua concretização?
Os munícipes, cansados de promessas e discursos otimistas, exigem agora respostas concretas. A cidade não pode continuar refém de um sistema que falhou rotundamente. A recolha de lixo não é um luxo — é um serviço básico, fundamental para a saúde pública e a dignidade urbana.
Responsabilidades políticas?
Num contexto em que a imagem da cidade se degrada visivelmente e os riscos para a saúde pública aumentam, impõe-se uma reflexão séria sobre a responsabilidade política por este fracasso. Onde está a supervisão? Que medidas foram tomadas quando os primeiros sinais de colapso surgiram? Que entidades estão a acompanhar o caso?
A Cidade da Praia merece mais. A população merece transparência, eficácia e, acima de tudo, respeito.